Abril a renascer em Portugal

Escrevo estas linhas no dia em que Por­tugal comemora os 43 anos da “Revolução dos Cravos”.

E, como sempre sucede nesta data, tento fazer um breve balanço destas décadas de Democracia, comparando-as com as déca­das de Ditadura que o País antes viveu (me­tade das quais eu próprio testemunhei).

Recordo que fora em 1926 que um gol­pe militar, desencadeado em Braga, instau­rara um regime auto-designado por Estado Novo ou Ditadura Nacional.

Dele emergiu a figura de Salazar, que viria a assumir a liderança dessa Ditadura e a governar de forma autoritária, criando um sistema político que assentava, sobretudo, na repressão aos seus opositores e na proi­bição das mais elementares liberdades. Um dos seus instrumentos era a polícia política, PIDE/DGS, tristemente célebre por vigiar e prender a eito os que discordavam do re­gime, muitos deles torturados e alguns até assassinados – como foi o caso do general Humberto Delgado. Outro dos sustentácu­los da Ditadura era a Censura, que apreen­dia livros e discos, proibia canções e peças de teatro, esquartejava filmes e programas de televisão e impedia a publicação de notícias na rádio, em jornais e revistas.

Quem pretendia saber o que se passava no seu próprio País e no Mundo, tinha de sintonizar estações de rádio estrangeiras – mas fazê-lo às escondidas, pois também isso era proibido!…

Com uma gigantesca taxa de analfabe­tismo, a maior parte da população a viver sem condições mínimas (de saúde, de edu­cação, de higiene).

Um fosso enorme entre uma pequena minoria de privilegiados e a maioria dos portugueses que trabalhavam arduamente para subsistir. Uma elevada taxa de mortalidade infantil, uma reduzida espe­rança de vida. Eis, a traço grosso, o retrato de um País atrasado, onde as mulheres eram discriminadas e onde grande parte da po­pulação ainda andava descalça por não ter dinheiro para comprar sapatos.

Perante este cenário, muitos eram os que fugiam do País “a salto”, arriscando a vida em travessias clandestinas das fronteiras, pois até a emigração era proibida.

Portugal tinha contra si a maior parte dos países do Mundo, por força da política colo­nialista que sustentava uma guerra em três imensas frentes nas colónias em África (An­gola, Moçambique e Guiné) desde 1961. Uma guerra em que morreram milhares de jovens portugueses (e também milhares dos seus opositores dos movimentos pró-inde­pendência) e que constituía um fantasma para todas as famílias.

Com a corajosa Revolução de 25 de Abril de 1974, levada a cabo sem derrama­mento de sangue, derrubou-se a velha Dita­dura. E o País, até então “orgulhosamente só” (como Salazar gostava de sublinhar), passou a ser apontado como um exemplo de mudança não violenta de regime.

Agora, 43 anos volvidos, Portugal está longe de ser o País com que sonharam os que arriscaram e sacrificaram as suas vidas em nome da Liberdade, da Democracia, combatendo, por diversas formas, para uma sociedade mais justa e mais solidária.

Ainda assim, é justo reconhecer que o Portugal de hoje, apesar das dificuldades que se enfrentam, em nada se assemelha ao País de então.

Vivemos num regime democrático. Existe liberdade de expressão. Temos um Serviço Nacional de Saúde meritório (ape­sar dos sucessivos ataques de que tem vindo a ser alvo). A maioria dos jovens tem acesso ao ensino. Não estamos envolvidos em guer­ra. Às mulheres é reconhecida igualdade de direitos.

É certo que muitos dos ideais da Revolu­ção ficaram por cumprir ou foram adulterados por sucessivas gerações de políticos que (com honrosas excepções) se revelaram alheadas das realidades do Portugal profundo.

Mas, apesar disso, abençoada Revolu­ção que restituiu aos portugueses os direitos, liberdades e garantias que antes lhes eram negados!

Contudo, muito importa fazer e muito importa corrigir.

Como salientou Marcelo Rebelo de Sou­sa no discurso que proferiu esta terça-feira na sessão solene na Assembleia da Repúbli­ca, “os chamados populismos alimentam-se das deficiências, lentidões, incompetências e irresponsabilidades do poder político, ou da sua confusão ou compadrio com o po­der económico e social”. E o Presidente da República alertou: “Preveni-los ou pôr-lhes cobro requer determinação, antecipação e permanente proximidade e satisfação das legítimas necessidades comunitárias”.

É o mínimo que se pode exigir de quem vai detendo o poder político – o que não é um sacrifício, antes um privilégio, que obri­ga a honrar sucessivas gerações que, essas sim, sacrificaram as suas carreiras e até as suas vidas em defesa da Democracia e da Liberdade.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)