A vida em negativos

Pela região serão poucos aqueles que não conhecem o fotógrafo “Zé Manel”. Com décadas de casa aberta e de experiência, José Manuel Miranda Alcaide é um dos mais antigos fotógrafos da zona e é com orgulho “e também teimosia” que continua a dedicar-se diariamente à arte da fotografia.

No entanto, esta foi uma paixão que surgiu já na fase adulta. Até lá, José Manuel Alcaide viveu várias peripécias, pelo concelho de Mira, de onde é natural, mas não só.

José Manuel Miranda Alcaide nasceu no lugar da Barra de Mira, num tempo de pouca fartura. Pela Barra fez o ensino primário, até concluir a 4.ª classe com 10 anos, altura em que se mudou para a Praia de Mira, para junto do avô, como era tradição familiar.

“O meu avô materno vivia na Praia de Mira, onde tinha uma mercearia que funcionava também como padaria e taberna e era normal que, a partir de certa idade, os filhos, e depois os netos, fossem para lá ajudar”, começa por explicar.

Na mercearia do avô Zé Galo, Zé Manel ajudava no que podia. E os serviços eram variados: “vendíamos mesmo um pouco de tudo. Até tecidos e roupas feitas. Para além disso, eramos dos únicos locais aqui da zona onde as pessoas podiam vir comprar os bilhetes para as camionetas”, recorda, acrescentando que foi nesse período que percebeu que tinha “veia para o comércio”

Quando o avô faleceu, foi a mãe quem ficou à frente do negócio, sempre com a ajuda dos seis filhos – Zé Manuel e os irmãos. “O meu pai faleceu de ataque cardíaco quando eu tinha cerca de sete anos e por isso era à minha mãe e a nós, à medida que íamos crescendo, que nos cabia meter o pão na mesa. A minha mãe foi mãe e pai, uma grande Mulher”, refere visivelmente orgulhoso.

Dos tempos de menino, o fotógrafo recorda principalmente o (longo) trajecto para a escola. “Caminhava cerca de 2 quilómetros, fizesse chuva ou sol”. Já as brincadeiras eram as normais para a altura, essencialmente pela rua, e frequentemente interrompidas pelo trabalho no campo, onde ainda ajudava a mãe sempre que esta necessitava.

Por volta dos 20 anos, José Manuel é chamado para cumprir o serviço militar e vai para Moçambique, para a Guerra do Ultramar. “Aqui havia muito a tendência de se ‘fugir’ à tropa indo para a pesca do bacalhau mas eu não tive essa inclinação”, começa por explicar, acrescentando de seguida: “Felizmente, a minha guerra foi um pouco de paz, pois fiquei como telegrafista”.

Ainda assim, refere, “deu para sentir, e bem, a guerra”: “Fiquei por Moçambique 27 meses e apesar de não estar na linha da frente, ia-me apercebendo das coisas e foi complicado. Principalmente, porque, mal tinha acabado de chegar, me disseram que um colega meu da Praia de Mira tinha morrido em combate”, recorda.

Como telegrafista o seu papel era essencialmente trabalhar na transmissão de mensagens. “Era um trabalho de grande importância e que tive muita sorte em ter arranjado. Era uma especialidade militar que me permitia estar mais tempo nas localidades e não entrar nas frentes de combate, com um bom horário e onde fiz grandes amigos”. Dessa altura, e embora o cenário fosse de guerra, ainda guarda boas recordações e momentos que lhe ficarão para sempre gravados na memória. “Lembro-me tão bem da praia da Beira. Era maravilhosa. Vivi momentos muito bonitos ali. Dizem que Moçambique fica eternamente no coração de quem por lá passa e olhe que é verdade”, diz-nos nostálgico, confessando que ainda não perdeu a esperança, nem a vontade, de lá voltar um dia.

Depois de cumprir o serviço militar, e já de regresso à Gândara, “Zé Manel” tinha à sua espera a namorada, Elizabete, com quem um ano depois viria a casar. E foi através desta união que nasceu a paixão pela fotografia, que acabou por ditar grande parte da sua vida.

Paixão que nasce da paixão

Quando José Manuel Alcaide começou a namorar com Elizabete, que conhecia desde pequena e que, curiosamente, é irmã de uma das suas cunhadas, já esta trabalhava durante o Verão na loja da Foto Galvão, na Praia de Mira.

“No Verão precisavam de mais funcionárias e ela começou a ir para lá ajudar. No entanto, mais tarde, mesmo durante o Inverno, passou a ficar responsável pela loja. Eu como ia para lá várias vezes, comecei a aprender com ela o básico da fotografia e foi daí que nasceu o bichinho”, conta-nos.

Durante anos, José Manuel foi descobrindo o mundo da fotografia analógica, “como tirar fotografias, como se fazia a revelação”. Quando soube que os donos da Foto Galvão iam fechar a loja, lançou-se numa nova aventura, comprando as máquinas e o recheio da casa e reabrindo-a, mudando-lhe o nome para “Foto Zé Manel”.

“Estávamos em Abril de 1974 e desde então nunca mais fechámos portas. Acabou por ser a força das circunstâncias que me levou a esta vida. Já lá vão 43 anos de casa aberta, não é brincadeira”, refere orgulhoso, contando como foi alimentando a paixão pela fotografia: “O gosto existia desde que comecei a perceber um pouquinho mais, por influência da minha esposa. Mas depois disso decidi não parar, e, como não havia cursos, fui aprendendo tudo de forma autodidacta”.

Falar de fotografia é para Zé Manel um prazer mas também algo que lhe desperta alguma melancolia, notória no tom de voz, que se vai modificando à medida que a conversa se desenrola. “Trabalhar na fotografia como eu trabalhei e ver como se trabalha actualmente causa-me muita nostalgia. A beleza da fotografia perdeu-se um bocado”, refere sem hesitar.

“Nos dias de hoje, qualquer pessoa com uma máquina fotográfica e um computador se julga fotógrafo, mas ser fotógrafo é muito mais que isso”, explica-nos, enquanto vai apontando para as várias e velhinhas máquinas que usou ao longo das décadas e que agora, embora ainda funcionem, habitam numa vitrina, onde permanecem em exposição, “a lembrar os tempos áureos desta arte”.

Essencialmente nas últimas décadas do século XX, refere José Manuel, a fotografia era rainha, mas entretanto a tecnologia veio mudar tudo. “As pessoas contratavam fotógrafos para casamentos, baptizados, encontros…para tudo e mais alguma coisa”, diz. Com efeito, há muito tempo que o fotógrafo perdeu a conta ao número de eventos que fotografou. “Ia para todo o lado, mas os meus clientes mais certos eram daqui do concelho de Mira e de Cantanhede. Em Febres tinha também imensos clientes e amigos, tantos que até pensei abrir lá a minha segunda loja, mas acabou por não acontecer”.

A fotografia era vista quase como uma relíquia e todos queriam ter em papel as recordações de dias importantes. “Era muito solicitado. Cheguei a fotografar várias gerações da mesma família. O casamento dos pais, os baptizados dos filhos, depois o casamento destes e os baptizados dos filhos deles…”, recorda.

A fotografia de estúdio – que nos revela que tem vindo a cair, cada vez mais, em desuso – era outra parte essencial da Foto Zé Manel, como se pode ver pelas dezenas de imagens espalhadas pelas paredes da loja. “Sem dúvida que era um dos trabalhos que mais satisfação me dava e no qual havia mais contacto com as pessoas. Captar a essência dos clientes que se sentavam aqui no estúdio e passá-las para a fotografia era algo desafiante – mas, ao mesmo tempo, muito compensatório”, explica, para acrescentar que entretanto, “já há pouca gente a fazê-lo. Até as fotos de passe deixaram de ser pedidas na maioria dos serviços. Tornou-se tudo digital”, desabafa.

José Manuel Alcaide é peremptório ao afirmar que, com o passar dos anos, a fotografia se tornou “mais banal”. “Antes era mais arte. Cada disparo da máquina era bem pensado, pois não se podia desperdiçar o filme”, assevera. Para além disso, frisa, também a segurança era outra. “Hoje armazena-se tudo em computadores, pen’s e discos rígidos que facilmente se perdem, estragam ou são atacados por vírus. Para além disso, a tecnologia torna-se rapidamente obsoleta. Tenho CD’s que já nem consigo abrir. Por outro lado, tenho negativos com décadas e dos quais, se quiser, ainda faço óptimas fotografias. Isto é impagável”.

Apesar de também ele ser adepto das novas tecnologias – “tive que me adaptar” –, o fotógrafo defende que é importante manter (ou retomar) o hábito de imprimir as fotos em papel. “É nisso que temos vindo a apostar, ultimamente. Mesmo que as pessoas usem as máquinas digitais, podem vir imprimir as suas imagens, caso contrário desconfio que daqui a 200 anos não haverá nada da história destas primeiras décadas da fotografia digital”. Nesse sentido, o fotógrafo refere que na Foto Zé Manel tem vindo, cada vez mais, a apresentar às pessoas a possibilidade de fazer álbuns temáticos e personalizados, “em que as fotografias são directamente impressas nas páginas de um livro, e que são verdadeiros reservatórios de memórias que podem ser preservadas por décadas e décadas”, refere.

Uma vida dedicada à fotografia

Ao longo das mais de quatro décadas de actividade na área da fotografia, José Manuel tem contado sempre com a esposa. “Aqui na loja somos só os dois”, refere, acrescentando ainda, entre risos: “Costumo dizer que passamos 25 horas por dia juntos”.

A convivência é fácil, assume, e mesmo em trabalho o casal entende-se “às mil maravilhas” e entreajuda-se. “Ela, por exemplo, tem mais jeito para a parte estética dos álbuns e assim”, admite.

Os filhos do casal – Bruno, de 40 anos, e Sandra, de 42 – embora não trabalhem na área da fotografia também já deram uma ajuda na loja. “Quando eram miúdos chegaram a vir para cá, mas ambos tiraram os seus cursos e seguiram as suas vidas. Já me deram três netinhos”, refere, assumindo-se um pai e avô orgulhoso e apontando para as fotografias da família – “a minha maior realização” – e que faz questão de mostrar naquela que é a sua segunda casa.

Aos 68 anos, o cansaço, assume, começa a instalar-se. “Já não tenho paciência para fazer a cobertura de casamentos, por exemplo”. Porém, se mantém a loja aberta é essencialmente, como nos manifesta, “por pura teimosia”.

“A verdade é que já estou aposentando e não me sustento com isto, principalmente desde que as pessoas deixaram de revelar fotografias, que era a tarefa mais rentável”, diz, acrescentando “ter, ainda assim, uma réstia de esperança de que a situação para nós, os fotógrafos da velha guarda, possa vir a melhorar”.

Em tempos, o ânimo pela profissão foi maior: “Adorava sair em reportagem, fazer as festas da região, fotografar paisagens, etc… Havia brio em ser fotógrafo. Cheguei a ganhar um concurso de fotografia em Barcelona e uma vez até me convidaram para ir dar uma aula na ESEC. Inicialmente hesitei, afinal não tinha formação teórica, mas correu muito bem”.

Hoje, os dias de Zé Manel pela loja de fotografia são bem mais descansados que há umas décadas. Se por vezes aparecem dois ou três clientes de uma só vez, há dias em que se passam horas sem entrar ninguém no estabelecimento. Ainda assim, o mirense refere sentir-se acarinhado e sabe que a marca “Zé Manel” estará sempre presente nas memórias reais e também fotográficas de todos os que com ele se cruzaram.

“Ainda hoje tenho clientes que fazem questão de vir aqui, muitos deles do interior do país e que conheceram a minha loja durante as férias na Praia de Mira, quando esta era um destino ainda mais concorrido”, diz-nos de sorriso aberto, garantido que o segredo “é lidar com todos os clientes com seriedade e recebê-los sempre com simpatia”.

Uma profissão de risco

pag4_5_ze-manuel

Durante tantos anos de trabalho como fotógrafo é normal que também sejam muitas as peripécias e os episódios vividos. Para José Manuel Alcaide há um, no entanto, que recorda mais frequentemente, por dois motivos: hoje dificilmente aconteceria e porque foi aquele em que tirar uma fotografia poderia ter sido demasiado arriscado.

“Sabia que já tive uma espingarda apontada à cabeça por causa de uma fotografia?”, questiona, espicaçando-nos a curiosidade. A explicação seguiu-se: “Isto passou-se há vários anos, quando as fotografias ainda serviam de prova em tribunal. Uma senhora, que já era cliente da loja, veio a minha casa por volta das 8 da manhã perguntar-me se podia ir com ela tirar fotos a um terreno que andava a ‘disputar’ com um vizinho. E eu lá fui”.

E continua: “Quando dei por mim tinha o tal vizinho a apontar-me uma espingarda à cabeça e a obrigar-me a sair do terreno. Eu saí, porque realmente não sabia a quem pertencia, mas da rua ainda tirei várias fotografias que mais tarde foram utilizadas em tribunal”.