A ternura dos 80

Américo Jorge Carvalheiro tem 84 anos mas uma “genica” e um brilho no olhar digno de um jovem. Na bagagem tem já uma vida cheia de peripécias mas também de muito trabalho, sempre no ramo da eletrotécnica.

Natural da Tocha, onde ainda vive, Américo Carvalheiro é um leitor assíduo de jornais e foi durante uma visita à sede do AuriNegra, do qual é assinante há vários anos, que nos deu a conhecer um pouco da sua história: dos tempos de menino até aos dias de hoje.

Natural de uma família humilde, o tochense nasceu numa época em que as dificuldades económicas eram muitas. Os dias começavam ainda de madrugada na lavoura e fartura era coisa que não existia. Ainda assim, como refere, “nunca passei fome”, pois havia sempre o que a terra dava e a “a criação de um porquito que depois se matava”.

Comer carne de vaca era, no entanto, uma raridade e Américo Carvalheiro recorda a primeira vez que isso aconteceu. “Devia ter uns 12, 13 anos quando comi pela primeira vez carne de vaca, e foi só porque a vaca morreu afogada”, diz-nos entre risos.

Na altura, como nos explica, era comum as vacas estarem num rol, uma lista em que constavam várias pessoas que receberiam dinheiro caso acontecesse algo ao animal. “Nesse tempo ia-se muito para a zona de Montemor comprar estrume para os terrenos, mas dessa vez houve uma grande cheia e a vaca acabou por morrer afogada numa vala”, recorda.

Enquanto a mãe trabalhava no campo, o pai foi inicialmente sapateiro, tendo adquirido mais tarde uma mercearia, onde vendia de tudo um pouco. Américo Carvalheiro ainda chegou a aprender a arte da sapataria com o pai mas “o jeito não era muito” e, por isso, escolheu arriscar no ramo da eletrotécnica. E foi com apenas 12 anos que deu início à sua carreira como aprendiz de eletricista no Hospital Rovisco Pais, na altura ainda em construção.

Montagem velhote

“Comecei como ajudante mas acabei por gostar daquilo”, refere. Aos 18 anos mudou-se para a Figueira da Foz para trabalhar e, em simultâneo, frequentar o Curso de Eletricista – que não chegou a concluir – na Escola Industrial. “Os meus pais pagavam-me um quartinho lá na Figueira da Foz e durante o dia trabalhava e à noite ia para as aulas. O meu ordenado era de 6 escudos e 40 centavos”, conta-nos.

Da Figueira da Foz, Américo Carvalheiro voltou para a Tocha, para fazer um trabalho muito importante: “Fui trabalhar para uma empresa sedeada em Quiaios, responsável por meter a electricidade nas zonas principais da Tocha. Depois disso fui para a Eletromecânica”.

Nessa fase eram muito os quilómetros que fazia sobre duas rodas. “Cheguei a ir da Tocha a Cantanhede de bicicleta muitas vezes… Não era fácil”, conta.

Já a trabalhar na Eletromecânica, o tochense foi chamado a cumprir o serviço militar, primeiro em Lisboa, na Escola Prática de Engenharia, e mais tarde em Santarém, na Cavalaria 4. Desse período – que foi pouco mais de um ano – recorda o momento em que se cruzou com o Coronel Carvalho Simões, que mais tarde veio a saber que era natural da Pocariça.

“Ainda me lembro do dia em que soube que erámos ambos do concelho de Cantanhede. Ele pediu-me para ir a casa dele meter uns candeeiros e eu lá fui. Entre conversas, ele perguntou-me de onde era e quando eu disse que era da Tocha ele disse-me que tínhamos umas contas a ajustar”, começa por contar, explicando o porquê da reacção do coronel: “Sabe que nessa altura a Pocariça e a Tocha tinham equipas de futebol e os jogos que disputavam resultavam sempre em pancadaria, daí ele ter dito aquilo na brincadeira”.

Findada a tropa, regressou à Gândara e também ao Hospital Rovisco Pais, onde se manteve como eletricista durante 39 anos.

“O Rovisco Pais era um grande hospital. O Bissaya Barreto pensou em tudo, realmente”, diz-nos, acrescentando ainda que chegou a ver o conceituado médico a operar. “Tinha que estar sempre um eletricista presente na sala de operações, não fosse algo falhar”.

Durante os tempos na antiga leprosaria, o tochense refere ter conhecido muitos doentes, que se tornaram amigos.“Nunca tive medo do contágio. Para mim era como se não fossem doentes. Quando me aposentei eles abraçaram-se a mim a chorar”, refere emocionado, acrescentando que ainda hoje, quando consegue, visita os poucos doentes dessa altura que por lá permanecem.

Pelo meio, conheceu a esposa (já falecida), também natural da Tocha, e com a qual viveu quase 50 anos de um casamento muito feliz. “Gostava muito de senhoras mas o jeito era pouco. A minha esposa conhecia-a na Praia da Tocha. Assim que ganhei coragem parecia o D. Afonso Henriques a conquistá-la. Dois ou três anos depois de namorarmos pedia-a em casamento”, diz-nos com os olhos marejados, recordando, sem falhas de memória, a data desse momento: 17 de Setembro de 1960.

Desse casamento nasceram dois filhos – uma rapariga, funcionária da escola da Sanguinheira e com quem vive, e um rapaz, polícia em Aveiro. Com o tempo, a família foi crescendo e “ganhou” três netos e mais tarde três bisnetos. A alegria de Américo Carvalheiro.

Os seus dias são passados a andar por vários locais do concelho de motorizada. Ora visita a Praia da Tocha, ora frequenta o café com amigos, onde passa o tempo em conversa ou a jogar cartas. Agora, depois de tantos anos de trabalho, refere que é tempo de descansar. No entanto, ainda há disponibilidade para dar uma perninha como actor no Grupo Amador de Teatro da Tocha.

“São coisas que gosto de fazer, assim como gostava de brincar ao Carnaval. Este ano fiz o papel de padre, mas já participo no teatro há mais de 30 anos”, diz-nos divertido já a caminho da sua lambreta que o levará em mais um passeio.