A insubstituível imprensa regional

Nas duas últimas semanas o tema que maior destaque mereceu às televisões portuguesas foi a “a caça ao homem mais procurado do País” – designação que os próprios jornalistas iam repetindo até à náusea nas sucessivas transmissões em directo, feitas pelos diversos canais, desde as zonas onde o fugitivo teria estado até a outras onde se dizia que poderia ainda estar.

E os repórteres destacados lá foram “enchendo chouriços”, tentando corresponder ao que lhes exigiam as suas chefias e ao que deles esperava o público telespectador (ou “voyeur”…).

A verdade é que, salvo escassas mas honrosas excepções, os directos têm sido preenchidos com frases cheias de lugares-comuns mas vazias de substância, repletas de disparates mas com ausência de factos relevantes.

Como atenuante, importa referir que não é tarefa fácil fazer directos em televisão – uma espécie de corda bamba em que deve manter-se o equilíbrio sabendo que não há rede para proteger em caso de queda. E mais difícil quando a novidade a transmitir é que… não há novidades! – como foi o caso, dia após dia, ao longo de mais de duas semanas.

Quem visse e ouvisse os serviços noticiosos das televisões portuguesas até poderia pensar que nada mais de importante se passava no País e no Mundo, tanto era o tempo e o espaço ocupado pelas reportagens, em directo, sobre as frustradas perseguições e as buscas infrutíferas.

Não raro, esta ânsia de ser o primeiro a informar leva a alguma leviandade na forma como a informação se constrói e se divulga, mesmo no mais conceituados órgãos de comunicação social. O paradigma da informação tem vindo a alterar-se de forma profunda. A evolução da ciência e da técnica criou novas formas de informar e instaurou maiores exigências por parte de quem quer ser informado.

Hoje pode seguir-se, em directo, pela internet, a ofensiva na Síria contra o Daesh. Mudando de canal, pode acompanhar-se, ao vivo, mais um debate entre os dois candidatos à Presidência dos Estados Unidos (refira-se, a propósito, que a campanha para estas eleições, que se efectuam no dia 8 de Novembro, se tem pautado por ataques pessoais nunca antes ouvidos, sobretudo da parte de Trump, dando uma péssima imagem do candidato e traçando um preocupante retrato sobre o estado a que a política chegou).

No momento em que escrevo estou a ver o que, até há pouco, só nos filmes de ficção científica era possível: a transmissão, em directo, desde a Estação Espacial Internacional, com dois astronautas a procederem a arranjos no exterior (uma transmissão que regista já, três horas depois de iniciada, cerca de 20 milhões de visualizações!).

Mas voltemos ao jornalismo que hoje se pratica. Deve dizer-se que os órgãos de comunicação tradicionais tiveram de se actualizar. E mesmo os que continuam a publicar as suas edições em papel, como o AuriNegra, criaram edições online e páginas nas chamadas “redes sociais”.

Para se ter uma ideia da grandeza deste novo fenómeno, cito os números que acabam de ser divulgados pelo “Netpanel meter” da Marktest: só durante o passado mês de Setembro, os sites de jornais, de revistas e de notícias portugueses receberam mais de 3 milhões de visitantes, através de computadores pessoais – o que corresponde a cerca de 60% dos internautas nacionais.

Nesse período de 30 dias, foram visitadas 298,2 milhões de páginas de sites de informação – uma média de 89 por utilizador. O tempo total de navegação nos referidos sites aproximou-se dos 5 milhões de horas – ou seja, uma média de 1 hora e 29 minutos por utilizador. Paralelamente, assiste-se a outro fenómeno muito preocupante: o número de jornais regionais existentes no nosso País tem vindo a decrescer de forma brutal. Em 1999 publicavam-se cerca de 700 jornais, em 2007 esse número já baixara para metade e o ano passado já só restavam 184 títulos em publicação (neste momento deverão ser ainda menos, já que, entretanto, mais alguns deixaram de ser publicados).

Contudo, são os órgãos da Imprensa Regional que continuam a falar das realidades e dos problemas de cada uma das zonas onde se publicam. São também eles que mantêm uma insubstituível ligação às comunidades de emigrantes espalhadas pelo Mundo.

E só quando os jornais desaparecem, vitimados pela crise e pela falta de apoios, é que as entidades locais se apercebem da falta que eles fazem e lhes dão o devido valor – que chega, então, demasiado tarde…

Nós, no AuriNegra, continuamos a lutar pela manutenção deste projecto, assumindo-nos como o jornal que maior destaque concede às questões que dizem respeito, sobretudo, à Região da Gândara – e, com particular destaque, aos concelhos de Cantanhede e de Mira.

Orgulhamo-nos do facto de ter vindo a aumentar, de forma muito significativa, a quantidade de pessoas que regularmente procuram a nossa edição on-line e a nossa página no Facebook

(em constante actualização) sem que isso prejudique o número de leitores que se mantêm fiéis à edição em papel. Tal como nos orgulhamos do rigor que imprimimos aos nossos conteúdos e da qualidade que lhes é reconhecida.

Queremos manter-nos na primeira linha desta evolução e continuaremos a esforçar-nos por estar sempre “na crista da onda”, em termos informativos e no que respeita à evolução tecnológica. Mas, para isso, obviamente que precisamos do apoio dos nossos Leitores, Assinantes e Anunciantes. Tal como das entidades, públicas e privadas, que operam nesta laboriosa Região Esse é o compromisso que aqui reitero, em nome da pequena mas esforçada equipa que trabalha, apaixonadamente, para levar até si todos os dias, na edição on line, e uma vez por mês, na edição em papel, uma informação actual e objectiva, rigorosa e isenta.