A Ciência do vinho

B.I.

LUÍS GOMES nasceu em Braga, há 42 anos, mas foi ainda cedo que se mudou com a família para Famalicão, localidade onde permaneceu até à altura de ingressar na faculdade e onde deu os primeiros passos na agricultura, acompanhando os avós na vindima. Formado em Bioquímica, pela Universidade de Coimbra, foi um dos mentores da inovadora empresa Crioestaminal, sediada no Biocant Park, em Cantanhede. No entanto, há 8 anos, decidiu trocar a ciência pelos vinhos e hoje é a cara (e o palato) de outro projecto empreendedor: o vinho “Giz”, produzido a partir das melhores vinhas da região da Bairrada.

 

Deixar a Ciência pelos vinhos parece uma decisão arriscada, mas foi esta a decisão que Luís Gomes tomou há 8 anos e que hoje faz dele um homem realizado e feliz. É no meio das vinhas de Enxofães que este bracarense de gema se sente bem. Ali, junto do solo e no meio da natureza, onde nasceu o seu “Giz”, um vinho que é um verdadeiro elogio à Bairrada e que quer levar cada vez mais longe. No entanto, a história profissional deste enólogo de 42 anos começou num universo bem diferente, o da Bioquímica, entre tubos de ensaio e pipetas.

Mas antes regressemos às raízes de Luís Gomes. Natural de Braga, foi em Famalicão, no entanto, que viveu grande parte da sua infância e adolescência. Os pais – ele professor de História e ela professora de Educação Básica – sempre tiveram uma forte ligação à terra e, por isso, fizeram questão de a passar aos filhos (Luís tem uma irmã mais nova, que trabalha como Bióloga).

É no meio da natureza que Luís Gomes se sente bem

“Desde pequenino que me lembro de ajudar os meus avós na vindima, numa altura em que ainda eram usados os carros de bois. Eu adorava andar lá no meio e ajudar no que podia. Nessa altura fazia-se normalmente uma matança do porco e era sempre uma grande festa em família”, recorda, em conversa com o AuriNegra. Os dias eram divididos entre a escola e as típicas brincadeiras na rua, com primos e amigos. Tempos diferentes dos de agora mas que ainda hoje lhe trazem saudáveis recordações, que agora, no papel de pai, tenta passar para os filhos.

Quando chegou ao fim do Ensino Secundário Luís Gomes já mostrava um especial gosto e talento para as ciências exactas. “Sempre tive mais jeito para as ciências, como a Biologia e a Físico Química, do que para humanidades, por isso Medicina, Bioquímica e Farmácia faziam parte das opções”. Acabou por seguir Bioquímica, onde viria a ingressar no mundo do trabalho, ainda que numa vertente mais comercial que laboratorial: “A verdade é que, ainda durante o curso, me fui apercebendo que mais do que o trabalho laboratorial e de investigação gostava do contacto com as pessoas e da vertente mais comercial, de aplicar a ciência para o mercado real e foi esse o caminho que escolhi”.

Durante dois anos trabalhou para a farmacêutica multinacional MSD, onde tinha como papel apresentar a empresas, hospitais e clínicas os medicamentos produzidos. “Foi uma experiência muito interessante e uma grande ‘estreia’ no mundo profissional”.

Porém, foi precisamente nesta altura que um amigo de Luís Gomes, o cantanhedense Gonçalo Castelo Branco – na altura já a trabalhar no Karolinska Institute em Estocolmo – surge com a ideia empreendedora de criar em Portugal uma empresa de recolha de células estaminais do cordão umbilical, uma prática já utilizada em várias partes do mundo mas que ainda não tinha chegado a Portugal.

A ideia é rapidamente aceite e a Luís e Gonçalo juntam-se mais três amigos: Raul Santos, Daniel Taborda e André Gomes (actual CEO da empresa) e nasce a Crioestaminal. De início, conta-nos o bioquímico e enólogo, o projecto é iniciado sem laboratório próprio, mas sim através de uma parceria estratégica com uma empresa belga. “Uma forma menos arriscada de investir, sem activos fixos”. A aposta foi mostrando estar certa e em poucos anos a Crioestaminal ganhou importância no mercado nacional até que em 2006 criou finalmente a sua sede e laboratório próprio, no recém-inaugurado Biocant – Parque de Biotecnologia de Cantanhede, onde ainda hoje se mantém com umas instalações alargadas. “Foi através do nosso professor Carlos Faro que fomos convidados a ir para o Biocant. Em poucos anos a empresa cresceu e é com orgulho que vi a empresa passar de 3 a mais de 50 colaboradores, que tive o prazer de acompanhar desde a fase de recrutamento”. Embora tenha deixado a Crioestaminal em 2011, é com carinho que Luís Gomes fala deste projecto, “o meu primeiro filho”, onde assegurou essencialmente o trabalho de responsável de marketing e comunicação.

“Foi uma experiência fantástica a todos os níveis. Obrigou-me a ter consciência daquilo que é necessário para se criar e fazer desenvolver uma empresa”, frisa. Com a evolução natural da empresa e dos mercados, os sócios fundadores decidiram “fechar o ciclo do empreendedorismo” vendendo as suas participações ao grupo norte-americano RiverSide.

“Percebi que tinha chegado a altura de passar a pasta. Temos que conhecer as nossas competências e a nossa utilidade nas diferentes fases do crescimento das empresas e naquele momento a Crioestaminal precisava de pessoas com perfil e competências de gestão diferentes e por isso escolhi vender e seguir em frente”. E desta vez para o “mundo” bem diferente.

Assim, da Crioestaminal Luís Gomes passou para os bancos da faculdade, desta feita para o Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. “Como sempre gostei da agricultura decidi arriscar e dedicar-me a essa área. No entanto preferi instruir-me primeiro e daí ter tirado o mestrado de Viticultura e Enologia. Um curso onde aprendi imenso e que assumo que me deu muito mais prazer que o de Bioquímica”.

As vinhas de onde sai o Giz são em Enxofães

Da teoria para a prática não demorou muito. E assim, a primeira experiência a fazer vinho foi num estágio de vindima com a Quinta das Bágeiras, em 2013. Em 2014 cria o seu primeiro vinho “made in” Enxofães, “num ano péssimo para os vinhos da Bairrada, consegui fazer um vinho agradável, principalmente para uma primeira experiência e isso deixou-me satisfeito”. No ano seguinte estreia-se finalmente como produtor de vinho da Bairrada e arranca o projecto “Giz”, que tem como como foco principal a “recuperação de antigas vinhas tradicionais, em solos de natureza calcária, (poupando-as de serem arrancadas) e a produção de vinhos autênticos”.

Aos poucos vai adquirindo algumas vinhas. Outras são cedidas por agricultores que já não as conseguem trabalhar. Uma pequena parte das uvas que vinifica é assegurada por viticultores vizinhos que ele próprio vai orientando e acompanhando ao logo de todo o ano. A única exigência é que todas sejam vinhas velhas, onde predominem as castas nativas  Baga – a casta rainha da região da Bairrada – Maria Gomes e Bical.

Um destino traçado a Giz

Apesar de ser natural do Norte do País, é na Bairrada, no meio das vinhas, que também se sente em casa. Ali, no seu “terroir” por excelência.

No entanto, a chegada de “sangue novo” às vinhas de Enxofães também trouxe um desafio: “Introduzir-me no meio foi sendo um caminho gradual que se fez devagar, mas aos poucos as pessoas foram ganhando confiança e acreditando em mim, principalmente com as provas dadas através dos vinhos. Foram acabando por perceber que o conhecimento que trago é válido e para mim também é muito importante a experiência deles. É uma verdadeira partilha de conhecimento”.

Embora viva em Coimbra, e esteja habituado ao rebuliço da cidade, são várias as vezes por semana que vem às vinhas de Enxofães, tratar das parras, podar ou simplesmente falar com agricultores. Outro dos destinos frequentes é a São Lourenço do Bairro, à Adega do Campolargo, “onde a magia acontece”. “A Adega Campolargo aceitou esta colaboração e cede-me o espaço assim como todo o seu equipamento, de grande qualidade, necessário para fazer os vinhos. Depois cabe-me a mim, enquanto enólogo e produtor, realizar todo o processo até chegar ao produto final”.

De nome “Giz”, os vinhos de Luís Gomes são, caracterizados pelo próprio “como vinhos elegantes e finos mas também complexos, estruturados e minerais. Este terroir permite obter vinhos com uma acidez natural elevada, que os deixa envelhecer de forma grandiosa”. O nome, explica-nos, vem da própria ligação ao solo onde as uvas são produzidas: “Um solo calcário, branco e com potencialidades enormes. Aqui em Enxofães temos aquilo que eu considero ser um dos melhores terroirs do mundo”.

Depois de colhidas as uvas, todos os seus néctares passam por barrica de carvalho francês, usadas (no caso do branco) ou novas (no caso dos tintos). Actualmente tem uma produção de 6 mil garrafas e três vinhos no mercado, dois tintos de 2016 e um branco de 2017. A estagiar está já o espumante, que chega ao mercado ainda durante o verão deste ano.

Encontrar os vinhos “Giz” só é possível em algumas das melhores garrafeiras do país: “Este é um vinho de nicho que não pode ser encontrado em grandes superfícies mas sim em sítios específicos. Em Lisboa estamos na Garrafeira Nacional, por exemplo. No Porto na garrafeira Tio Pepe e Garage Wines e em Coimbra na Garrafeira de Celas e Dom Vinho. Aqui mais perto estamos presentes na garrafeira Symposio, em Cantanhede”. Para além disso, poderá provar os vinhos deste produtor em restaurantes de todo o país, vários deles com estrelas Michelin como é o caso do Belcanto, em Lisboa, ou do Ocean, no Algarve.

Como quem gosta de vinho também gosta de comer, um dos passatempos de Luís Gomes é descobrir novos restaurantes e também novos destinos, que, sempre que consegue, concilia com a descoberta de novos néctares. “As minhas viagens preferidas foram à Borgonha (França), Toscana (Itália) e à Alsácia (França), onde se encontram vinhos tão bons, ainda que diferentes, quanto os da Bairrada ”. Outro dos seus passatempos passa pelo desporto – actualmente pratica padel e futebol com amigos.

Giz é um vinho complexo

A família também é um dos eixos principais da sua vida e, por isso, é frequente passar tempo com a esposa e os dois filhos (uma menina e um menino, de 9 e 7 anos) a quem tenta incutir um espírito de liberdade, através de passeios ao ar-livre, voltas de bicicleta, visitas às vinhas ou piqueniques.

Da vida de cientista tem apenas saudades do trabalho de equipa. De resto, é na agricultura que se sente realizado e é com esta ligação à terra que pretende continuar o seu futuro profissional. Nesse sentido, e num futuro breve, o objectivo é continuar a fazer o seu “Giz” crescer: “Tenho actualmente 2 hectares de vinha a produzir e gostava de chegar aos 6. Outro projecto que tenho em mente é a produção de azeite. Tenho familiares que têm olivais em Trás-os-Montes e pretendo investir também neste ramo”. De resto, o desejo é “levar os meus vinhos mais longe e, em simultâneo, trazer conhecimento para a Bairrada, continuando a potenciar esta bela região”.

Autor: Carolina Leitão