A arte de uma longa vida

[Reportagem publicada originalmente em Junho de 2014]

B.I Maria Augusta d’Almeida Galvão nasceu no Beco do Moreno, em Coimbra, no dia 21 de Maio de 1917. Aos 12 anos veio para Cantanhede com os seus pais e irmãos. Foi casada com António Costa, de quem teve três filhos, e desde cedo revelou aptidão para as artes, nomeadamente desenho, pintura, música, fotografia, artes cénicas e poesia.

A vida nem sempre lhe sorriu, mas “Augustinha” fez questão de, mesmo assim, nunca desistir de ser feliz. Nos bons e nos maus momentos, serviu-se de uma energia que parece inesgotável. Aos 97 anos, ainda que as recordações sejam muitas, continua a viver essencialmente o presente, com uma intensidade tão grande como aquela que imprime nas suas pinturas e poesias.

Tem apenas 1,39 metros de altura e um corpo franzino que lhe valeu o diminutivo de “Augustinha”. Mas Maria Augusta só é pequena em tamanho, porque a nível de talento é de uma grande e invulgar estatura.

Maria Augusta d’Almeida Galvão celebrou os 97 anos há poucos dias, mas a “genica” com que nos recebeu em sua casa quase nos fez duvidar da sua idade. Nascida e criada até aos 12 anos em Coimbra, “Augustinha” é filha de Miquelina de Almeida Réu Galvão e de António Mendes Galvão, e é a 3.ª de oito irmãos.

“Naquele tempo não havia televisão nem rádio e as pessoas entretinham-se a fazer filhos”, afirma Maria Augusta divertida, acrescentando que quando nasceu foi uma decepção para os pais “que esperavam finalmente ter um filho varão. Mas tiveram azar que vim eu e depois ainda mais duas. Tiveram cinco raparigas e três rapazes”.

A sua infância é recordada como um período “muito lindo”. Foram tempos de grande felicidade em que saltava à corda e jogava à macaca, ao lencinho e às escondidas com as suas amigas de escola. Enquanto relembra estes tempos, quase se esquece da nossa presença e começa a entoar uma das músicas que se cantarolavam durante essas brincadeiras: “Sola, sapato, rei e rainha foi ao mar buscar sardinha para o filho de D. Luís que está preso pelo nariz. Os cavalos a correr as meninas a aprender, qual será a mais bonita que se há-de ir esconder? Atrás do muro de D. Inês vai lá tu que é a tua vez”.

Ao contrário de muitas das pessoas que nasceram no período de guerra/pós-guerra, “Augustinha” nunca passou fome ou dificuldades maiores. Apesar de terem muitos  filhos, os pais conseguiram sempre manter uma vida desafogada, para a altura.

O pai, António Mendes Galvão, era empresário na área da restauração e foi proprietário de vários cafés de Coimbra, “um no Arco de Almedina, outros dois na Rua da Sofia e na Rua das Padeiras e um outro no Luso”, refere “Augustinha”.

Para além destes negócios, António Galvão mantinha ainda cota na, entretanto extinta, fábrica da Cerveja Estrela e na Fábrica do Gelo, em que Maria Augusta dava uma mãozinha “transportando o gelo num seira forrada com serradura, desde a Baixa até à Estrada da Beira”.

O espírito empreendedor e trabalhador de António Galvão era notório. Como tal, o empresário criou também os rebuçados Galvão que “tiveram muita fama” e o Licor Marialva. “O meu pai tinha muitos empregados por conta dele, porque não havia máquinas e era tudo manual. Tinha um espaço grande com uma mesa onde fabricava os rebuçados que eram polvilhados com talco para não se pegarem e depois as chamadas embrulhadeiras que os selavam em papelinhos”, conta-nos.

 

De Coimbra para Cantanhede

Quando tinha 12 anos a vida de “Augustinha” mudou drasticamente com a vinda da família para Cantanhede.

Os negócios do pai, que até então corriam “de vento em popa”, saíram prejudicados de uma sociedade entretanto estabelecida. “O meu pai queria ajudar toda a gente e decidiu ajudar um patife que lhe acenou com dinheiro para uma sociedade. Mas afinal esse homem era um vigarista que falsificou documentos e deixou o meu pai quase na miséria”, afirma Augusta Galvão.

Apesar de o seu pai ter levado o sócio à barra do tribunal, o dinheiro perdido nunca mais foi reposto e a família foi obrigada a procurar uma nova forma de sustento. Nessa altura, o jornal Gazeta de Cantanhede anunciava um emprego como gerente para o Café Central, que ainda hoje existe. António arriscou, conseguiu o lugar e a família mudou-se para aquela que à data ainda era apenas uma pequena vila.

“Cantanhede era um lugarejo. Se chovia era só lama, se não chovia era só poeira. Não havia casas de banho, eram só as chamadas retretes”, lembra Maria Augusta. Para além disso, os cantanhedenses tinham o hábito de tratar a pessoas por “você”, o que lhe causava alguma embirração: “não estava habituada a que me tratassem por ‘você’ e achava horrível. Então a minha mãe dizia-me que quando me tratassem assim eu deveria responder: ‘você é estrabaria, eu dava palha e você comia’. E assim o fiz algumas vezes”, acrescenta, sorridente.

Pouco a pouco, Maria Augusta e a sua família foram-se habituando a Cantanhede e não mais daqui saíram. “Augustinha”, que havia completado apenas a quarta classe em Coimbra, era muito inteligente e por isso ficou com o cargo de regente escolar e ajudou várias jovens a prepararem-se para os exames.

Mas, apesar de ter abandonado os estudos ainda cedo, Maria Augusta nunca deixou de cultivar a mente. “Continuo a aprender todos os dias. Desde muito cedo que sou uma autodidacta, estudava sozinha através de livros. E não me estando a gabar, porque é a verdade, já tenho corrigido muitas pessoas que estudaram bem mais que eu”, afirma.

Porém, ao mesmo tempo que, para a altura, já se considerava “sabida em muitos aspectos”, noutros revela que era ainda leiga. “Era instruída por um lado mas atrasada por outro. Um dia cheguei ao ponto de, com as minhas irmãs, trazer para casa um ramo de flores de batata, a pensar que era um bonito arranjo para enfeitar a casa. Na verdade, até chegar a Cantanhede, só conhecia as flores e os outros produtos do campo através de imagens de livros”, recorda.

E livros é algo que para Maria Augusta nunca se tem em exagero. Na casa onde vive e onde recebeu o AuriNegra, existem livros a espreitar por todos os cantos e sobre os mais variados temas – desde saúde a literatura, passando pelas artes, que continuam a colorir a sua vida.

 

Nascida para as artes

A veia artística sempre pulsou forte na nossa entrevistada. Segundo o que a mãe lhe contou, desde muito pequena que andava por casa, ainda em Coimbra, de lápis na mão a riscar as paredes. “Não era como hoje que há papéis e livros… antigamente para comprar um cadernito era preciso ter algum dinheiro”, refere.

De casa para a escola o “jeito” continuou presente e, por isso, “ganhava sempre o primeiro prémio do concurso de desenho que a minha escola organizava às quartas-feiras”.

Mas, para além do desenho, também as letras eram, e continuam a ser, umas das suas paixões. “Desde pequenina que copiava todas as frases que via nos livros das minhas irmãs mais velhas. Usava, muitas das vezes, as bordas do Jornal O Século onde copiava letrinha a letrinha”, admite Maria Augusta.

Todavia, ainda que as artes já fossem uma presença assídua no seu dia-a-dia, foi só após a deslocação para Cantanhede que “Augustinha” as começou a levar “mais a sério”. Foi nessa fase que começou a fazer coisas tão diversas como, por exemplo, pintar almofadas de alianças para os casamentos, decorar bombos de jazz e desenhar nas fitas de seda utilizadas nas comunhões.

Depois de ajudar o pai no Café Central, Maria Augusta ainda ia para casa tricotar, durante horas, camisolas, gorros e casacos de lã. Nas horas vagas caminhava até à Pocariça para aprender a pintar a carvão com a artista Amélia Carneiro.

Aos 16 anos, começou a ter encomendas e mais encomendas. Na sua maioria de retratos que, como refere, é, ainda hoje, aquilo que menos gosta de fazer “porque pode ficar muito lindo mas não se parecer com a pessoa”. Através do seu talento ganhou algum dinheiro que permitiu que os pais não tivessem que comprar nada para o seu casamento. “Fui eu que paguei tudo”, reforça.

  

Um amor interrompido

Maria Augusta Galvão casou-se com António Jorge Costa aos 24 anos.

Na altura, o seu pai já tinha deixado o Café Central e tinha criado a Pensão Galvão. A família de António Costa vivia perto e por isso tornou-se uma presença constante na casa de Augustinha. “As nossas famílias davam-se muito bem e umas vezes jantávamos em casa deles, outras vezes vinham eles a nossa casa. Foi aí que ele começou a gostar de mim e eu dele”, recorda, com um olhar saudoso.

Cortejaram-se durante 7 anos, um namoro que para Augustinha pareceu demasiado longo, porque o que queria mesmo era casar. “Naqueles tempos os namoros duravam tanto tempo, ora na janela, ora na porta. Era tão chato!…” – desabafa.

O tão esperado casamento acabou por realizar-se no ano de 1941. Infelizmente, porém, a vida pregou-lhes uma partida: António viria a falecer com apenas 33 anos, vítima de tuberculose pulmonar.

Após estes curtos seis anos de um casamento feliz, Maria Augusta viu-se sozinha, igualmente doente com tuberculose e com três filhos (uma menina e dois meninos) para criar. Lutou contra a doença e venceu-a, mas ficou sem forma de sustentar os filhos, uma vez que a lei de então não atribuía qualquer herança às viúvas.

Em vez de se deixar ir abaixo, “Augustinha” arregaçou as mangas e decidiu tomar de trespasse a Fotografia Estrela, aproveitando os conhecimentos que um dos filhos tinha nessa área.

“Naquele tempo o processo de revelação era complicado. Não é como agora que vai tudo para um computador. Tínhamos a câmara escura com uma luz verde e uma vermelha e tinas com revelador, água e fixador. Era um processo muito demorado”, explica.

Lentamente, o negócio foi evoluindo e ganhando cada vez mais clientes. Maria Augusta aprendeu a trabalhar melhor com fotografia e mesmo quando o filho foi chamado para o serviço militar, “segurou as pontas” sozinha, trabalhando dia e noite. “Durante o dia tinha que ter a porta aberta para receber os clientes e à noite tinha que revelar as fotografias”, relembra.

Alguns anos mais tarde abandonou o negócio da fotografia, depois de a sua loja ter sido vandalizada no seguimento de um desentendimento com a senhoria do prédio em que estava instalada. Porém, sublinha que “há males que vêm por bem”, pois foi a partir desse momento que pôde voltar a dedicar-se a tempo inteiro à pintura e à poesia.

 

“A energia está metade no cérebro e metade na língua”

De corpo e alma. É assim que Maria Augusta se dedica actualmente à vida e à arte. Aqui estão incluídos os dois filhos (um deles já faleceu), os 5 netos e os 7 bisnetos, mas também as suas pinturas, poesias e trabalhos manuais, dos quais nunca abdicou.

Nem os 97 anos que já conta lhe tiram a energia. Na verdade, nos últimos tempos “Augustinha” tem tido ainda mais projectos. Desde exposições, programas de televisão, teatro, etc.

Maria Augusta mantém-se activa e a prova disso é que está, de momento, a compor um conjunto de músicas para a fadista Carolina Pessoa. Entretanto, vai continuando a pintar a carvão e a óleo, a fazer colagens, a cantar, a tocar viola e harmónica (gaita de beiços), etc…

“É complicado ser assim multifacetada! Há dias em que não sei para onde me virar, porque quero fazer tudo e depois cada cliente tem gostos diferentes”, desabafa.

Como “o tempo é precioso”, em 2011 decidiu mostrar o seu talento ao mundo e compilou os seus poemas num livro que intitulou de “Uma vida”. Na verdade, as suas poesias são isso mesmo: retratos escritos de uma vida longa, que vai desde a infância até à velhice, que parece não a assustar.

Mas qual será o segredo para conservar tamanha energia aos 97 anos? “Olhe, metade está no cérebro e a outra metade está na língua”, responde Maria Augusta, acrescentando que “não há dia nenhum em que não faça uma poesia. Às vezes estou para dormir e vem-me algo à cabeça e vou logo apontar”.

Este dinamismo e o gosto que ainda nutre pelas artes tem uma explicação simples: “Estou constantemente insatisfeita. Quero sempre fazer mais e melhor. Porque tudo aquilo que fiz ainda acho pouco comparando com aquilo que podia ter feito”.