A arte de ser doutor palhaço

Jorge Manuel Barreira dos Santos Rosado nasceu em Moçambique a 7 de Dezembro de 1968 mas desde os cinco anos que vive em Portugal. Professor de Educação Visual e Tecnológica há mais de duas décadas, foi através da profissão que veio para Cantanhede, cidade que já “adoptou” como sua e onde tem vindo a desenvolver o projecto Palhaços D’Opital, um sonho tornado finalmente realidade

Jorge Manuel Barreira dos Santos Rosado é um palhaço orgulhoso que encontra na arte de fazer rir os outros um modo de realização pessoal. Embora seja professor de Educação Visual e Tecnológica há mais de duas décadas, foi só depois dos 35 anos que começou a descobrir a sua verdadeira paixão: ser palhaço. Há três anos, Jorge Rosado criou a associação Palhaços D’Opital, um projecto cujo principal objectivo é espalhar sorrisos onde eles são realmente importantes: nos rostos daqueles que sofrem nos hospitais, com especial atenção aos seniores.

Na sede da associação que dirige, em Cantanhede, Jorge Rosado recebeu-nos para uma longa conversa que teve como fio condutor o seu percurso de vida, desde os tempos de criança até à actualidade, em que se dedica de corpo e alma ao projecto Palhaços D’Opital, “o menino dos seus olhos”.

Jorge Rosado nasceu em Moçambique mas como veio aos cinco anos veio para Portugal, são poucas as lembranças que conserva do continente africano. “As recordações desse período são muito poucas. Aquilo de que me recordo mais é do cheiro a manga, de alguns sabores, da sensação da terra quente…”, começa por nos contar.

Apesar de os seus pais serem ambos portugueses – o pai é natural de Coimbra e a mãe de Chaves –, o regresso a Portugal só aconteceu devido a um grave acidente que o pai sofreu, e que o deixou em coma durante vários dias.

“Na altura tivemos que o trazer para Lisboa até ele recuperar. Ficámos na capital durante cerca de um ano. Foi um período complicado, principalmente para a minha mãe, que tinha à sua responsabilidade dois filhos pequenos”, diz-nos.

Após a recuperação, a família deslocou-se para Chaves e depois para Braga, cidade onde Jorge Rosado acabou por passar a infância e grande parte da adolescência.

“É de Braga que guardo mais lembranças. Vivia numa zona complicada, a poucos metros da Sé de Braga, e como passava muito tempo a brincar na rua de repente tinha amigos – alguns que ainda mantenho – com vidas muito duras e complicadas, o que me ajudou a dar valor às pessoas, independentemente do seu estatuto social”, refere.

Com a constante mudança de sítio, a vida de Jorge Rosado tornou-se uma autêntica roda-viva. “Durante um período da minha infância, andei constantemente a ‘saltar’ de terra em terra, o que levava a que fosse complicado criar algumas raízes. Mas se por um lado isso era mau, por outro lado permitiu-me ganhar algumas ‘ferramentas’ que ainda hoje me ajudam a adaptar e a travar amizades rapidamente”.

Terminado o Ensino Secundário Jorge Rosado seguiu para Coimbra, onde se licenciou em Educação Visual e Tecnológica, na variante de ensino, pela Escola Superior de Educação.

“Desde pequeno que gostava de desenhar e ainda pensei seguir Belas Artes, mas teria que ir para Porto e nessa altura era complicado”, afirma. Na cidade dos estudantes, Jorge Rosado começou a vida académica com pouco ânimo mas arranjou um escape no desporto. “Treinava muito, e procurava muita informação, principalmente ao nível da alimentação desportiva”.

Por volta dos 22 anos, “praticamente do nada”, Jorge Rosado começou a interessar-se pelo conceito de “levar alegria ao hospital”. “Era e ainda sou uma pessoa de interesses variados e nessa altura comecei a explorar essa área. Ainda cheguei a enviar para os Hospitais da Universidade de Coimbra a proposta de um projecto para animar os doentes mas nunca obtive resposta”.

Entretanto a ideia ficou adormecida e quando Jorge Rosado concluiu a licenciatura já havia casado, era pai de uma menina e necessitava de trabalhar para sustentar a família.

“Apesar de gostar de estar com os alunos, ser professor nunca foi o meu sonho, nem é. Mas foi aquilo em que me formei e é daquilo que vivo há vários anos”, refere, sem hesitar. No primeiro ano foi colocado em Montemor-o-Velho, seguiu-se Febres, Tocha e Mira, onde ainda dá aulas.

Quando foi leccionar para Febres, localidade onde fez grandes amizades, Jorge Rosado conheceu Cantanhede, onde vive desde então. “Nessa altura Cantanhede era uma cidade completamente desconhecida para mim. Hoje posso dizer que já me sinto cantanhedense e que tenho muito orgulho nisso”.

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Aprender a ser palhaço

Jorge Rosado confessa-se um apaixonado por todos os tipos de arte, no entanto, foi só por volta dos 35 anos que começou a explorar melhor aquela que hoje mais lhe aquece a alma: ser palhaço.

“Acho que a viragem da minha vida aconteceu quando me divorciei da minha ex-mulher. A situação não foi fácil para os dois e houve uma altura em que nem sempre podia ver as minhas filhas. Esse sentimento de impotência fez com que ganhasse uma vontade de querer animar crianças, principalmente em situações complicadas”, refere.

Curiosamente, nesse período, como nos conta, “uma pessoa amiga estava a organizar uma festa de aniversário e disse-me que não conseguia arranjar um palhaço e eu então ofereci-me”.

Em poucos dias, o professor teve que preparar uma personagem para animar crianças: “Nesse período, tal era a excitação, quase não dormi para fazer roupas, pensar na maquilhagem, etc… No final, a festa correu mais ou menos e apesar de não ter experiência nenhuma, a coisa começou a espalhar-se”.

Depois disso, Jorge Rosado criou um personagem, de seu nome Kaki, e começou a apostar fortemente na formação, principalmente no estrangeiro.

“Em Portugal havia muito pouca formação na área. Entretanto apareceu a oportunidade de ir fazer um curso a Barcelona com um dos palhaços mais conceituados do mundo, o Alex Navarro, e eu fui”, afirma. Apesar de nessa altura já fazer vários trabalhos como palhaço, Jorge Rosado apercebeu-se de que havia ainda muito por aprender: “Eu até achava que sabia alguma coisa mas depois, na formação, foi como dar um passo atrás. Estava tão entusiasmado, parecia uma criança numa loja de chocolates, queria ver tudo, aprender ao máximo”.

Algum tempo depois, passou das animações de festas de aniversário para os palcos. “Achei que havia outras formas de ser palhaço e então dediquei-me ao palco. Criar um espectáculo é sempre mais motivador”.

Dessa fase em especial, Jorge Rosado recorda um concurso em Póvoa de Varzim, em que ganhou o primeiro prémio. “Eu e um amigo criámos um espectáculo intitulado Abelha Mágica. Era a primeira vez que actuava a sério em palco e os outros concorrentes tinham muito mais experiência, por isso foi muito gratificante vencer. Nunca me vou esquecer das gargalhadas da audiência”.

Mais tarde, começou a colaborar com a Associação Acreditar, em Coimbra, em iniciativas que visavam levar o palhaço a crianças internadas no Hospital Pediátrico. Depois investiu em mais formações em Portugal (com a Dream Doctors e a Nariz Vermelho), em Itália e, mais recentemente, em Israel, onde teve a oportunidade de conviver com doutores palhaços de todo o Mundo e com estilos bastante diferentes.

 

gente de ouro_Palhaçadas a sério

Como se não bastasse dividir a sua atenção entre a família – que considera o mais importante, a docência, as formações e os espectáculos, há três anos Jorge Rosado escolheu enfrentar mais um desafio: a associação Palhaços D’Opital, que tem particular preocupação com os seniores.

“Chegou a uma altura em que senti que aquilo que fazia podia ter mais significado. Precisava de lhe dar um sentido, e trabalhar em hospitais seria pegar no projecto que tinha delineado muitos anos antes e dar-lhe vida”, começa por afirmar ao AuriNegra. Chegou a candidatar-se à Operação Nariz Vermelho, a mais conhecida “escola” de doutores palhaços, mas por várias razões não conseguiu entrar. Entretanto, conta-nos, “a minha mulher incentivou-me imenso a criar um grupo próprio e eu decidi avançar, sempre com o apoio dela”.

Actualmente, a Palhaços D’Opital mostra o seu trabalho uma vez por semana nos hospitais de Aveiro, Viseu e Figueira da Foz. E por onde passam conquistam tudo e todos, desde enfermeiros, médicos e auxiliares até aos doentes e familiares.

Embora a maioria das associações com doutores palhaços estejam direccionadas para um público infantil, a Palhaços D’ Opital trabalha essencialmente com doentes adultos e seniores.

“Somos a única associação de doutores palhaços da Europa a dedicarmo-nos aos seniores. O nosso objectivo é tentar que as pessoas, e principalmente os jovens, reflictam verdadeiramente sobre o papel dos seniores no mundo actual. Queremos ser um dos pilares, no sentido de ajudar a sociedade a olhar para os mais velhos de outro modo”. Para tal, a associação tem vindo a desenvolver, para além do trabalho em hospital, palestras em escolas assim como formações.

Mas o que é isso de ser um doutor palhaço? “O conceito de doutor palhaço nasceu nos Estados Unidos da América e é a arte de levar um palhaço para um ambiente específico, como é o caso de um hospital. Exige um trabalho e uma preparação diferente, porque está sujeita a regras e ocorre num ambiente muito particular e com regras muito próprias”.

Apesar de ter começado como Kaki, actualmente, a pele que Jorge Rosado mais veste é a do Dr. Risotto. “O Kaki não é adequado para trabalhar num ambiente hospitalar. O Dr. Risotto e a Enfermeira Belita [Isabel Rosado] já têm uma preparação diferente, como por exemplo a nível da imagem. Tentamos que, em ambiente hospitalar, o palhaço não seja uma figura intrusa. Eu, por exemplo, tenho apenas um nariz, bigode e sombra nos olhos. Para tentar entrar no ambiente hospitalar da forma mais discreta possível, usamos também uma bata ligeiramente alterada”.

Um dia de trabalho destes doutores palhaços começa por volta das 10h00 com a chegada da dupla ao hospital e com a transformação para Dr. Risotto e Enfermeira Belita. “A partir daí o Jorge e a Isabel não existem. Tentamos desligar totalmente e encarnar as personagens”, afirma Jorge Rosado, com um tom sereno, bem diferente daquele que usa assim que se transforma em Dr. Risotto.

Antes de visitarem os pacientes, os palhaços reúnem com a equipa médica e de enfermagem de cada serviço. “Nesta fase os profissionais de saúde transmitem-nos o máximo de informação sobre os pacientes, qual o estado anímico deles, quais vão ter alta, as rotinas do serviço, entre outros aspectos”, explica-nos.

Só depois começa a visita propriamente dita. Quarto a quarto, os doutores palhaços batem à porta e só entram quando são autorizados pelos utentes: “Eles têm o poder de escolher se querem ou não a nossa presença. Não nos impomos”.

Apesar de terem uma ideia inicial preparada, os Palhaços d’Opital não têm guião e os jogos/improvisações são adaptadas às situações com que nos vamos deparando. Tudo é natural e tudo lhes nasce no momento, ao sabor do improviso. Daquilo que os pacientes lhes dão, em palavras, sorrisos ou acções.

“Aquilo que tentamos é conduzir uma proposta de jogo, ou uma ideia de performance que os leve a reagir”, partilha Jorge Rosado, para logo depois acrescentar que as reacções são sempre diferentes de doente para doente: “Cada quarto é um pequeno mundo. Ao contrário das crianças, a maioria dos seniores, nem sempre, está predisposto à brincadeira, mas grande parte acaba por aderir e participar”.

Embora acabe por criar uma ligação com alguns dos utentes, Jorge Rosado tenta, ao máximo, separar as águas, “só assim se consegue estar num ambiente hospitalar sem nos sentirmos influenciados com as histórias tristes que alguns nos contam”.

O objectivo é somente um: “levar alegria, humor e afectos aos doentes”. “Eles até podem não soltar nenhuma gargalhada mas desde que haja uma alteração positiva do seu estado anímico, já valeu a pena a nossa visita. Os médicos trabalham com o lado doente do utente e nós com o lado saudável, é por isso que ser doutor palhaço é um privilégio, uma honra”, conclui Jorge Rosado, acrescentando que o seu sonho é um dia poder deixar a profissão de professor e dedicar-se apenas à sua paixão.

Três anos de sorrisos

No próximo dia 13 de Fevereiro a Palhaços D’Opital celebra três anos de existência num jantar solidário que terá lugar, pelas 20h00, no restaurante Tempu’s, um dos parceiros da associação, a par do Município de Cantanhede e da Adega Cooperativa.

As reservas podem ser efectuadas através dos números de telefone 239 053 902 ou 918 057 441. O preço do jantar é de 20 euros, sendo que 10 revertem a favor da associação.

O evento contará com a presença dos padrinhos do projecto, o actor Ruy de Carvalho e a filha Paula de Carvalho, a quem Jorge Rosado tece rasgados elogios.

“O Ruy e a Paula aceitaram desde logo o convite para serem padrinhos da associação, o que para nós é um orgulho. O Ruy de Carvalho é uma pessoa maravilhosa, sensível e com muito bom coração”, frisa.

Ter uma figura pública associada ao projecto é um factor muito importante “Neste momento ele é uma grande ajuda na divulgação. Ter um rosto como o do Ruy a dar a cara pela nossa associação tem um impacto muito grande”. Para além do actor, a Palhaços D’ Opital tem contado com a ajuda de outras figuras públicas como a eurodeputada Marisa Matias, o cantor Pedro Abrunhosa e o actor Gonçalo Diniz.

Depois de três anos de actividade, o balanço do projecto é muito positivo. “Tem corrido muito bem, primeiro, porque foi muito bem desenhado e apoiado. Depois, também ajudou imenso o facto de eu já ter alguma experiência e de ter feito formação lá fora”, sublinha Jorge Rosado.

Prova desse sucesso são as várias distinções que a associação já recebeu, entre elas a menção de Start Up de Sucesso, Acredita Portugal (em 2013), o prémio EDP Solidária, num projecto da Santa Casa Misericórdia de Coimbra (em 2014), o prémio “Um Minuto Solidário”, da Fundação Montepio (em 2015) e o prémio Sapo (também em 2015). Para além disso, têm sido cada vez mais os convites que têm surgido não só para reportagens mas também para programas de televisão, como a série “Bem-vindos a Beirais”.

“As pessoas estão cada vez mais sensíveis para a nossa causa e isso é gratificante”, conclui Jorge Rosado.