A arquitectura da música

B.I.

Daniel Filipe da Silva Montinho nasceu a 18 de Fevereiro de 1979, em Cantanhede. Desde pequeno apaixonado pelo universo das artes, foi na Arquitectura que encontrou a sua realização pessoal. A música é outra paixão, à qual se dedica através da Banda Tempo.

É entre dezenas de maquetas que Daniel Montinho trabalha diariamente. No seu escritório, em Cantanhede, o arquitecto dá asas ao sonho que o tem levado a países como Dubai e, mais recentemente, Paquistão.

Para perceber o percurso de Daniel, é necessário “viajar”, através das palavras contadas ao AuriNegra, até ao ano de 1979, ano em que nasceu em Cantanhede. Filho do enfermeiro Juvenal Montinho e da costureira Alzira Samelo, Daniel viveu parte da sua infância nos Covões, com as tias-avós e com os avós maternos.

“Logo em criança tive um problema de saúde grave, uma infecção urinária, que levou a que nenhum jardim-de-infância me aceitasse. Então os meus pais acabaram por me deixar ao cuidado da minha tia avó Celeste que se mostrou disponível”, começa por recordar.

Enquanto miúdo, refere, “era bem reguila, mas não demais”. O que já se notava era mesmo o talento para as artes plásticas: “Plasticina, desenho e, principalmente, o barro. Tenho recordações de ir apanhar o barro e ficar horas a trabalhá-lo. Como a minha tia-avó Celeste Samelo era costureira e dava aulas de costura, eu acabava por passar a vida entre linhas, tecidos e fitas métricas, o que também pode ter, de alguma forma, influenciado o meu caminho, até porque ela era para mim uma referência”. Outras memórias são as das brincadeiras entre amigos, “estávamos na década de 80 e começava a surgir a febre dos videojogos em Portugal. Lembro-me de que havia um amigo que tinha uma consola e nós íamos todos para casa dele e ficávamos por lá a jogar horas a fio”.

Na altura de entrar para o Ensino Básico, o jovem, entretanto já a viver em Lagoas (Febres), vai para Cantanhede estudar, seguindo depois para a Escola Secundária, onde a paixão para as artes se começa a materializar numa escolha de vida.

“Acabou por nem ser uma escolha, de tão natural que foi. Era algo muito evidente”, explica. Com a vinda para Cantanhede, refere, houve uma mudança a nível de amizades, porque “o meio era maior e erámos muitos mais alunos”. Já na Secundária, recorda com especial carinho o professor José Paixão, “que me ajudou a clarificar aquilo que queria seguir e me acabou por mostrar a importância da arquitectura”.

Em paralelo, também a música já era uma presença activa na vida de Daniel Montinho. Mas esse é um assunto de que nos falará mais à frente.

De regresso à arquitectura. Na adolescência, Daniel já sabia que aquilo que queria era “construir edifícios”, por isso foi sem grandes dúvidas que optou pelo curso de Arquitectura, na ARCA, em Coimbra.

“Não foi um curso fácil. Foram muitas lágrimas e suor, mas era um curso muito motivante, principalmente porque tinha um conceito multidisciplinar, o que fortaleceu o meu conhecimento nos vários tipos de arte, mas também na escolha da arquitectura”, frisa.

Após concluir o curso, começou logo a trabalhar no gabinete de um seu ex-professor, em Coimbra, onde ficou alguns anos, até entrar para a Central Projectos.

“Esta foi uma fase em que passei por vários tipos de edifícios e alguns projectos de grande envergadura”, refere, citando alguns exemplos, como o Estádio Municipal da Pampilhosa da Serra, vários Intermarchés, o Centro Tecnológico da Cerâmica e Vidro, em Coimbra, e o Hotel Maçarico, na Praia de Mira.

Para Daniel Montinho, o mais interessante na área é, principalmente, “o estudo da história da arquitectura. A forma de construir foi evoluindo e reflecte a história e a cultura de cada época, e isso é muito interessante. Por outro lado, é motivante porque é um trabalho que parte sempre de um problema e da necessidade de procurar uma solução”.

Ao mesmo tempo que trabalhava na Central Projectos, Daniel tinha já, desde 2004, um gabinete próprio. Por isso, assim que saiu da empresa, em 2012, passou a dedicar-se a tempo inteiro apenas ao seu negócio. “Como é óbvio, tenho mais liberdade mas também mais responsabilidades”. A equipa, para além de Daniel Montinho, conta com uma engenheira, outra arquitecta e um arquitecto estagiário. Consoante o projecto, há ainda vários colaboradores pontuais.

“A parte mais difícil passa pela gestão de pessoas”, partilha, referindo que o negócio tem corrido bem. “Como tenho competência e facilidade na ligação com as pessoas e uma forte componente humana, acabo por conseguir criar conexões e ‘ganhar’ a confiança dos clientes”. Neste momento, Daniel Montinho tem obras por vários pontos do País, mas também no estrangeiro.

“Tenho projectos de Norte a Sul de Portugal. Muitos trabalhos de reabilitação, mas também de construção de raiz. Um dos mais interessantes é a recuperação de várias casas numa aldeia de Xisto na Serra do Açor, Arganil”, explica Daniel. Fora de portas, os projectos também já são vários, mas o febreense destaca os quatro restaurantes para a cadeia Natta’s, com sede no Dubai e que entretanto se expandiu para o Paquistão.

O trabalho já o levou a conhecer estes países e muitos outros. “Viajar é sempre uma experiência interessante, pela diferença de culturas, de cheiros, de sabores. A nível arquitectónico claro que há um conceito definido para os restaurantes, mas tento adaptá-lo também ao País em que se insere, como foi o caso do Paquistão, onde me foquei no verde do Norte do País e no uso do cobre, muito comum por lá”. A nível de arquitectura, Daniel Montinho destaca três cidades. Coimbra, “porque tem um centro histórico ainda muito uniformizado, o que lhe dá um ar característico”; Lisboa, “pela intervenção humana que teve de raiz a nível de arquitectura, pelas mãos de Marquês de Pombal, e que tão bem resultou e a tornou marcante; e Paris, “uma cidade caracterizada por um planeamento puro e duro a nível arquitectónico, que lhe dá uma grande homogeneidade”.

“O rock tomou conta de mim”

Se o gosto pelo desenho e pelas artes plásticas – que o acabaram por levar à arquitectura – brotou bem cedo, também com a música aconteceu o mesmo.

“Foi ainda em miúdo que comecei a ouvir música, nas cassetes do meu irmão mais velho, e a mostrar interesse, até que os meus pais me meteram em aulas privadas”, explica. Nessa altura o mentor escolhido foi Luís Branco, “uma figura muito importante em Febres, uma vez que ensinou música a dezenas de miúdos”. Do solfejo às primeiras notas foi um saltinho. E embora Daniel tenha começado pelos sons mais clássicos, rapidamente se apercebeu que aquilo que gostava mesmo de tocar era rock dos anos 80, estilo no qual encaixava melhor o som da guitarra eléctrica.

“Aos poucos, o rock foi tomando conta de mim e decidi que tinha mesmo que aprender guitarra eléctrica”. Como não havia, à época, um ensino organizado desse instrumento, Daniel, desta vez por iniciativa própria, vai novamente ter aulas com um professor particular: Paulo Mendes, da Serredade, Febres. “Foram poucos meses de aprendizagem intensa e depois continuei a tocar e a desenvolver, mas de forma autodidata. E cada vez rock mais pesado” – diz, sorridente.

Daniel Montinho no 1.º ano, na Escola Primária de Covões

À medida que o conhecimento (e a paixão) pela música ia aumentado, começaram a surgir os primeiros projectos musicais. “Era a fase da irreverência dos anos 90. Juntava-me a amigos, criávamos projectos e actuávamos para amigos ou em festas da escola. O primeiro projecto julgo que se chamava ‘Paraíso em Chamas”, recorda, divertido. Nesse período, Daniel já começara também a cantar, “era ‘empurrado’ para vocalista grande partes das vezes e acabei por gostar”.

Quando começou a tocar com maior regularidade em bandas, surgiu o convite para ingressar na Banda Tempo, um projecto de clássicos do rock, com quem tendo vindo a colaborar desde 2010.

Para além de concertos, a banda realiza ainda eventos e festas particulares. “Temos trabalhos todos os fins-de-semanas, e embora possa ser cansativo é muito motivador, porque fazemos música, mas também porque acabamos por conhecer imensa gente interessante”.

Embora a agenda de concertos se centre essencialmente em localidades entre Leiria e Aveiro, também já fizeram espectáculos em Lisboa e Bragança. “É um projecto e um compromisso que todos encaramos com responsabilidade e que tem tido muito boa aceitação do público”. No entanto, e embora adore aquilo que faz, Daniel Montinho não se imagina a viver exclusivamente da música.

“O meu investimento pessoal nunca foi nesse sentido. A música serve essencialmente como hobby e também um escape”, frisa, acrescentando ainda a logística que implica na vida pessoal, conciliar trabalho, família (tem um filho pequeno, que já gosta muito de música) e ainda esta paixão.

Quanto à ligação entre a música e a arquitectura, o febreense frisa que ambas vivem de elementos espaciais. “Ambas vivem de uma métrica. É algo geométrico, contado, medido…”.

Futuramente, o arquitecto e músico pretende continuar a conjugar as duas actividades. “Quero desenvolver ainda mais o meu negócio e os meus projectos, indo sempre mais longe. Há sempre a ambição de fazer mais, aquele projecto que nunca se fez, uma obra ainda maior, e é para isso que vou continuar a trabalhar”.

Uma obra especial

Entre os vários projectos em que tem estado envolvido, há um que Daniel Montinho destaca: o da Junta de Freguesia de Febres.

“Como febreense que sou, tenho uma grande ligação afectiva à freguesia. Acho que é uma freguesia com muita gente com vontade de fazer coisas e com muitas colectividades dinâmicas, e isso é de louvar”, afirma, aproveitando o momento para entoar o hino de Febres.

Quem passa pela Praça Florindo José Frota, em pleno centro da vila gandaresa, não fica indiferente ao novo edifício que alberga a Junta de Freguesia e o Espaço Cidadão.

“É normal que cause espanto, o objectivo também passava por aí. O largo de Febres há muito que é um espaço descaracterizado, com edifícios de várias épocas. Não há nem uma época, nem um estilo, nem um desenho consensuais”, começa por afirmar.

Como tal, Daniel Montinho escolheu ser coerente com a época contemporênea e construir um edifício moderno. “E, uma vez que é um edifício institucional, optei por algo que assumisse a singularidade que esse edifício comporta. O facto de ter imenso vidro também pretende passar uma imagem de transparência, associada aos instrumentos públicos”.

“No fundo, pretendia-se transmitir uma imagem de progresso trazendo a modernidade ao largo de Febres, e creio que isso foi conseguido”.

Autora: Carolina Leitão