A amar se vai longe

Maria Manuela dos Santos Gonçalves de Miranda nasceu em Oliveira do Hospital mas há várias décadas que vive em Ançã, a terra que a acolheu e que já sente como sua. Professora de Educação Moral Religiosa e Católica na Escola Secundária de Cantanhede há 30 anos, é na fé que encontra o seu ponto de equilíbrio e foi através desta que, curiosamente, conheceu o seu marido, Tiago Miranda – o seu primeiro e único amor, e de cujo casamento nasceram seis filhos.

Para nos contar um pouco da sua história, recebeu-nos sala de professores da escola onde lecciona. Com um sorriso largo, ainda que tímido, falou-nos não só da sua infância mas também da forma como desde cedo abraçou a fé e deixou que esta a orientasse nas suas escolhas de vida.

“Os meus pais são naturais de Lagares da Beira mas quando eu nasci eles já viviam em Oliveira do Hospital. O meu pai era torneiro mecânico e a minha mãe era doméstica”, começa por contar Manuela Miranda, recordando que a mãe, “para ajudar no orçamento da casa”, ainda fazia trabalhos de tricot para fora: “Lembro-me dela a tricotar camisolas e outras coisas até altas horas da madrugada. Ela é um exemplo para mim. Também muito tímida, discreta mas abnegada”.

Da sua infância tem essencialmente boas lembranças. “Foi uma infância normal, feliz, com muitas brincadeiras e sempre marcada por uma forte união familiar. Erámos uma família humilde mas feliz. Nunca faltou amor nem a mim nem aos meus três irmãos”, frisa.

Porém, quando Manuela Miranda tinha dez anos, a família decide mudar-se para Leiria. “Fomos em busca de melhores condições de vida. Primeiro foi o meu pai e depois fomos todos atrás”, refere. Cerca de dois anos depois volta a haver uma mudança, desta vez para Coimbra. “Nessa altura estávamos no pós 25 de Abril e o meu pai era encarregado de pessoal na fábrica. As coisas começaram a ficar complicadas, o meu pai foi saneado e decidiu trazer-nos para Coimbra. A ideia era também permitir que continuássemos os estudos na Universidade”.

Apesar de a família se manter sempre junta, cada vez que trocava de cidade Manuela Miranda deixava para trás amigos e hábitos. “O choque da mudança custava sempre um bocadinho, mas recordo-me que acabava sempre por gostar dos no vos sítios e fazia rapidamente novos amigos”, sublinha. Porém, recorda-se que com a chegada a Coimbra se deparou com uma realidade que até então não conhecia: no 6.º ano começou a frequentar uma turma mista, na Escola Martim de Freitas.

“Até ao momento só tinha frequentado turmas femininas, em que as brincadeiras eram muito de menina – como, por exemplo, brincar com bonecas, dançar… Ao entrar numa turma mista tive uma reacção de receio e timidez. Foi difícil esse impacto”, recorda.

Mais tarde, quando chegou o momento de escolher que caminho seguir na Faculdade, Manuela Miranda optou pelo curso de Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “Tomei a decisão ainda andava no 12.º ano, na Escola José Falcão. Sempre pensei em ser professora e Filosofia agradava-me porque permitia reflectir e questionar o mundo e a própria vida”, afirma.

A ajudar esteve ainda o gosto pela leitura. “Sou uma leitora ávida desde tenra idade. Em criança, apesar de ter muitos amigos, acabava, por vezes, por me refugiar na leitura”, sublinha.

Na universidade, Manuela Miranda refere que participava “q.b. na vida académica”, pois nessa altura também já havia descoberto uma nova casa, para dar voz à sua fé.

Voltando atrás, a professora explica que apesar de, até então, o seu percurso de vida ter sido sempre marcado por uma forte vivência da fé no seio da família, por volta dos 15 anos precisou de ir à procura de algo mais e descobriu o Movimento Católico de Estudantes (MCE). “Era numa altura em que estava a passar por uma crise de fé e o MCE ajudou-me a encontrar respostas e a dar maior fundamentação à minha crença. Curiosamente, foi um professor de Moral, o cónego Urbano Duarte, quem me ajudou a perceber que isto de ser cristão nos leva a ver a vida de outra forma e foi ele quem me apresentou o MCE”.

Para além disso, foi num campo de férias organizado pelo movimento que conheceu o grande amor da sua vida: “A paixão pelo Tiago nasceu aí, ainda que não tenhamos começado logo a namorar”.

Depois de algum tempo no MCE, Manuela Miranda começou a frequentar, por influência do actual marido, o CUMN – Centro Universitário Manuel da Nóbrega, orientado por padres jesuítas. “Tenho uma grande ligação afectiva com o CUMN. É um local onde nos é dada a possibilidade de aprofundar questões da fé mas também debater temas de actualidade. É tudo aquilo que nos leva a viver o cristianismo de uma forma mais esclarecida- Ajuda-nos a crescer como pessoas, e isso é muito importante nos dias de hoje”, sublinha.

Para além disso, refere a professora, “uma grande parte dos amigos que levo para a vida vieram dali. E é engraçado que os meus filhos também frequentam o CUMN e alguns dos amigos deles são filhos desses meus amigos que lá conheci”.

A dádiva de ser professora

Concluída a licenciatura, surgiu a oportunidade de começar a leccionar, na Escola Secundária de Cantanhede, a disciplina de Educação Moral Religiosa e Católica.

“Como tinha a licenciatura de Filosofia e, anos depois, tirei também um curso de Ciências Religiosas no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), tive a possibilidade de me profissionalizar como docente de EMRC, embora durante alguns anos tenha chegado a dar também aulas de Filosofia”. Maria Manuela acrescenta que “aquilo que era para ser temporário [dar aulas de EMRC] tornou-se uma paixão. Aquilo que faço como professora desta disciplina é algo que me realiza porque me permite ajudar os alunos a crescer a nível pessoal”.

Pelos corredores daquela que é a sua segunda casa, todos a conhecem, não só pela sua simpatia mas principalmente pelo sorriso, tímido mas aberto, que entrega a todos com quem se cruza: sejam alunos, colegas ou funcionários.

“Faço aquilo de que gosto e isso ajuda-me a retirar uma grande satisfação do meu trabalho”, frisa. Apesar de agora não se imaginar a ser outra coisa que não professora, Manuela Miranda refere não ter a perfeita noção de quando se apercebeu que seria aquele o seu rumo de vida. “Sei que acertei na profissão mas não sei precisar quando nasceu a paixão por ensinar. Talvez tenha resultado de algumas influências de professoras que conheci ao longo do meu percurso”, refere.

“Recordo-me de uma que era muito autoritária, por exemplo. Tinha tanto medo dela e ficava tão nervosa antes das aulas que por vezes até vomitava”, lembra, para logo depois acrescentar que não foi esse o exemplo que seguiu. “Felizmente também encontrei professoras muito boas, que me permitiram olhar para a docência como uma profissão repleta de potencialidades. Lembro-me, pela positiva, de uma professora em Leiria que nos preparou para exame, e que apesar de no início me ter assustado por ser um pouco rude, acabou por mostrar uma grande dedicação aos alunos”.

Com efeito, é com entusiasmo que abraça a docência e que, apesar das centenas
de alunos que já passaram pelas suas aulas, recorda cada aluno com carinho: “Procuro que cada aluno se sinta especial. Tento perceber os mais tímidos, que precisam de alguém que os compreenda, mas também os outros, mais interventivos naturalmente”.

“Ser professora significa ter a possibilidade de dar um contributo muito grande à sociedade. Em cada aula temos a possibilidade de ‘tocar’ outras pessoas e de ajudar os alunos a construírem um mundo melhor”, frisa.

Para a “stôra” Manuela Miranda cada aluno é um diamante “alguns mais em bruto que outros”. A sua missão, se assim se pode dizer, é essencialmente levá-los a questionar, a pensar, a partilhar: “Chegar até eles e dar-lhes ferramentas para crescerem, acima de tudo. Não é um trabalho fácil. Existem sempre altos e
baixos neste trabalho”. Porém, para além de professora, não tem pejo algum em afirmar que também é uma amiga: “Eles sabem que podem contar comigo para tudo. Tento ter uma relação próxima com todos eles”.

Nos últimos anos, a professora de EMRC começou a promover o voluntariado junto dos seus alunos. “Há três anos nós ganhámos o prémio YoungVolunteam, um concurso da Caixa Geral de Depósitos que distingue projectos de voluntariado”.

O projecto vencedor foi a loja social “Dá e Leva” que permite aos estudantes e funcionários da Escola Secundária de Cantanhede deixar ou pegar peças de vestuário usado, de uma forma descontraída. “Não está lá ninguém a controlar, o que permite que não haja estigmas. Todos usam a loja, quem tem necessidades e quem não tem”, explica.

Para além da loja, a ESC tem realizado vários eventos, com o propósito de angariação de fundos e bens para associações do distrito. No entanto, a maior intervenção acontece com a associação SOGA – Servir Outra Gente com Amor, que pretende apoiar os habitantes da ilha de Sogá, “a ilha mais pobre da Guiné-Bissau”.

Foi através deste projecto que a professora esteve, no Verão passado,
um mês na ilha. “Comecei a achar que fazia sentido eu ir e servir de testemunho”, frisa. Apesar dos riscos, Manuela Miranda decidiu seguir o coração. “Quando lá cheguei senti que tinha recuado à pré-história. Deparei-me com uma ilha que não tinha quase nada. Em que as pessoas têm uma única refeição por dia, que é à base do arroz que lá cultivam”, começa por contar.

Sogá tem cerca de 2600 habitantes. “Vivem em palhotas e não há saneamentos nem nada que se pareça. Cuidados de saúde são quase nenhuns. É uma grande pobreza”, acrescenta.

Durante um mês, o trabalho de Manuela Miranda passou por promover uma consciencialização junto da população a respeito dos cuidados de higiene, do uso da água e da importância da educação.

“Cheguei ainda a ir uma semana a Bissau dar formação a professores. Em Sogá existe uma escola, mas a maioria das mães, como não sabe ler nem escrever, nem percebe a importância de se investir na educação”, explica.

Com vista a combater este pensamento, Manuela Miranda conseguiu criar o projecto “Escola das Mães”, para estas aprenderem a ler e a escrever. Para além disso, a par com outros voluntários, conseguiu fazer chegar até aos habitantes da ilha pequenas coisas que facilitam as suas vidas, “como por exemplo prensas para retirar o óleo da palma – que eles vendem, medicamentos, material escolar, filtros de água, entre outras coisas”.

Para Manuela Miranda, a experiência foi “uma verdadeira liçãoenviado_pag4_5_ Maria Manuela Miranda de vida. Apesar de todas as dificuldades por que passam, acolhem-nos com uma alegria gigante. Este tipo de experiências ajuda-nos a dar às coisas materiais o seu devido valor e não a sobrevalorizá-las, como actualmente acontece no nosso mundo consumista ”, garante. Apesar de por agora não pensar em regressar a Sogá, “talvez pessoas mais jovens possam ir em meu lugar”, Manuela Miranda não esquece as crianças que lá conheceu. “Lembro-me deles todos os dias, sinto-me muito responsável por elas. É como Saint Exupéry diz em ‘O Principezinho’: ‘Tu és responsável por aquele que cativas’”.

Um verdadeiro clã

Manuela Miranda conheceu Tiago Miranda, na altura estudante de Direito, quando tinha 18 anos e soube, desde logo, que era ele “o tal”.

O encontro proporcionou-se, como já referimos, num Campo de Férias do MCE. “Foi a fé que acabou por nos unir”, afirma, peremptória, acrescentando ainda que ele foi o seu “primeiro e único namorado”.

Apesar dpag4_5_gente de ouroe referir que, como em qualquer casamento, também têm os seus problemas, é no diálogo, no carinho e na compreensão que encontram a forma de “manter a chama acesa”.

Com seis filhos, entre os 13 e os 28 anos de idade, a professora refere que ter uma família grande era algo que desde cedo ficou definido entre o casal. “Tanto eu como o meu marido viemos de famílias grandes e muito unidas e queríamos dar isso aos nossos filhos. O nosso namoro foi muito dialogado e desde cedo que falávamos de ter uma família numerosa. Acabaram por vir seis”, afirma, bem-humorada, acrescentando que na ceia de Natal que se aproxima chegam a ser 45 pessoas à mesa.

Apesar de ter escolhido constituir uma família numerosa, a professora tem noção que isso traz mais responsabilidades e também a necessidade de definir prioridades. “Adaptamo-nos às circunstâncias. Claro que qualquer coisa em família tem que ser muito bem pensada, mas conseguimos sempre manter aquilo que é o mais importante que são os valores de família e humanos, a fé e uma boa formação”, considera.

Apesar de actualmente os filhos já serem mais independentes e se ajudarem uns aos outros, a professora refere que sempre conseguiu estar presente em todos os momentos importantes, organizando o seu tempo da forma mais conveniente. “Tento ser organizada mas nem sempre sinto que consiga. Na verdade, o segredo da minha organização é não ser perfeccionista. Tento fazer tudo a que me proponho, mas sei que por vezes, se tivesse menos coisas para fazer, talvez as fizesse melhor”, refere.

Com o trabalho de professora, a catequese (que dá há 28 anos) e o voluntariado, o tempo tem que ser bem controlado. Ainda assim, a família é a sua grande prioridade. “É na família que encontro a minha grande força”, revela.

Tal com ela, também o marido tem uma vida bastante ocupada – foi procurador e agora é juiz –, mas o casal tenta sempre tirar momentos para namorar. “Durante muito tempo deixámos de ir ao cinema, por exemplo. Mas como os filhos estão crescidos retomamos as idas, muito de vez em quando, e sabe muito bem”, confessa-nos, sorridente.

Depois de 29 anos de casamento, Manuela Miranda refere amar ainda mais o marido do que quando começaram a namorar.

“Quando amamos temos que nos aperfeiçoar um ao outro. Ele tem-me vindo a ajudar a tornar uma melhor pessoa, assim como eu o ajudo a ele. Para mim o amor é assim: quanto mais se dá, mais se tem”, diz-nos emocionada e com os olhos a brilhar das lágrimas que teimam em querer sair.

Aos 53 anos, Manuela Miranda é, sem sombra de dúvida, uma mulher realizada, tanto a nível profissional como pessoal. Professora, catequista, mãe, esposa, voluntária, amiga… Para todos estes papéis o seu lema é acreditar que “a amar se vai longe”. Talvez por isso o seu sorriso franco e rasgado ganhe, à luz de todos os problemas e injustiças que já viu e viveu, um brilho muito especial.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)