94 anos de arte e sabedoria

Segundas, quartas e sextas-feiras são dias de hidroginástica. Às terças-feiras é vez de pintura a pastel. Já as quintas-feiras são dedicadas à pintura a óleo, à encadernação e à astronomia. Este é o calendário de actividades semanais de Mário Dinis Pereira que, aos 94 anos, é a prova viva de que o segredo da longevidade “é nunca estar parado”.

Mário Dinis Pereira é natural de Febres (quando esta ainda se chamava Febres do Boeiro), onde nasceu a 29 de Junho de 1922. E embora resida há várias décadas em Lisboa é pela vila gandaresa que passa grande parte do verão, passeando lentamente pelas ruas, onde vai parando junto de amigos e conhecidos que o interpelam para dois ou mais dedos de conversa.

“No Verão aproveito para descansar verdadeiramente. Vou 15 dias para as termas de S. Jorge, em Santa Maria da Feira, e o resto do tempo fico por aqui”, afirma.

Um dos pontos de paragem obrigatório das suas férias é a redação do jornal AuriNegra, do qual é assinante e também colaborador há vários anos. Na verdade, são várias as vezes em que por aqui vai parando e contando alguns episódios da sua vida, já tão longa quanto rica.

Entre conversas, as memórias do passado surgem inevitavelmente e Mário Pereira recorda-se de Febres como poucos a viram. “Nos anos 20 Febres não era nada daquilo que hoje é”, começa por contar, lembrando que a então aldeia era um verdadeiro areal, “as estradas eram rudimentares, a igreja não era no sítio actual. Era muito diferente de agora”.

Nessa altura, Mário Pereira, que nasceu em pleno coração da vila, recorda que ia para a escola a pé. “A minha professora não era nada branda. Lembro-me que dava muito uso à palmatória e erámos quase cem alunos só para uma professora”.

Logo no primeiro dia de aulas, o febreense viveu uma situação que nunca mais esqueceu. “Eu vim para a escola todo limpinho, porque morava perto e por isso não tinha que vir a pé de longe, como muitos dos meus colegas. Quando a professora chegou, os miúdos foram todos obrigados a fazer assim, assim e assim”, exemplifica mostrando as mãos. À medida que ia inspecionando cada um dos alunos, a professora separava-os em dois grupos. “No final estavam todos os alunos de um lado e apenas eu do outro. E vai a professora passa-me a palmatória e manda-me dar duas reguadas a cada um, porque alguns estavam sujos, outros cheiravam a álcool, etc. Fiquei muito aflito mas bati-lhes, ou melhor, deixava cair a régua na mãos deles. Então a professora chamou-me e deu-me seis ‘palmatoadas’ e disse-me: ‘É assim que se bate’”, recorda, assumindo o momento como “um dos mais traumatizantes que vivi”.

Enquanto petiz, as brincadeiras eram essencialmente fora de portas. “Jogávamos jogos tradicionais e também com bolas de farrapos pela rua. Ainda cheguei a ter uma bola de plástico mas vieram uns matulões e estragaram-ma”.

“Bastante tímido e um bocadinho preguiçoso” para estudar – fez apenas a 4.ª classe –, o pequeno Mário Pereira começou desde cedo a ajudar os pais no negócio de família. “O meu pai tinha uma padaria que era ainda taberna, talho e mercearia. Por cima tinha uns quartinhos e funcionava como pensão. A minha mãe ajudava-o e era ainda a doceira da aldeia, fazia doces e bolos maravilhosos”, refere.

Na verdade, foi com a mãe que Mário Pereira refere ter aprendido bem cedo a cozinhar, “cheguei a fazer alguns bolinhos até”, recorda, acrescentando que nessa época ia muitas vezes de bicicleta a Coimbra e Aveiro pegar farinha para a padaria.

Mário Pereira recorda o pai como um homem rígido e “excessivo no génio” mas ao mesmo tempo muito trabalhador. “Ela fazia de tudo um pouco, até chegou a assar leitões para o Oliveira Salazar. Um dia o Salazar foi à Praia de Mira e comeu um leitão assado pelo meu pai, gostou tanto que volta e meia mandava gente vir aqui buscar leitões para ele comer em Lisboa”.

Já a mãe, natural de Sepins, é recordada pelo sénior como uma mulher com M grande. “Era a minha mãe que mandava e orientava tudo. Era óptima pessoa, uma grande senhora e a verdadeira mãe dos pobres, que nunca recusava ajuda a ninguém”. Em tempos de guerra, Mário Pereira recorda a pobreza que se vivia por todo o concelho: “Eram tempos muito difíceis e as pessoas vinham aqui com as senhas para comprar os produtos e acabávamos por dar sempre mais qualquer coisa. Ficamos com muitos calotes de dezenas de contos”.

Embora tenha tido uma infância feliz e desafogada devido ao negócio dos pais, “que me permitia ser um dos únicos que usava sapatos”, Mário Pereira não se livrou de alguns sustos com a saúde. “Era um menininho frágil e estive à beira da morte algumas vezes. A primeira foi logo aos três anos, quando, sem querer, me envenenei com formicida. Tive que fazer uma lavagem ao estômago e ainda tive um período longo de recuperação. Uns anos mais tarde, novamente por acidente, coloquei fogo à cama… imagine a aflição da minha mãe. Houve ainda outra vez em que parti um termómetro e decidi engolir o mercúrio”, recorda entre risos, reiterando que “era mesmo reguila”.

Outro dos momentos que evoca com mais carinho e nostalgia foi a sua primeira vez na praia. “Por conselho do médico passei a ir um mês para a Praia de Mira. A primeira vez foi um pouco traumatizante porque o banheiro levou-me à água e eu tive muito medo e escondi-me durante horas por baixo da capela, que era assente em estacas. Ninguém me conseguia tirar de lá”, conta-nos divertido.

Durante toda a adolescência Mário Pereira permaneceu por Febres onde ajudava os pais. E foi enquanto trabalhava na pensão que descobriu aquela que viria a ser a sua esposa e o único amor da sua vida. “A minha esposa era lisboeta embora vivesse em Coimbra desde os sete anos. Quando veio dar aulas para a escola de Balsas como professora de Ensino Primário ficou instalada num dos quartos que o meu pai alugava”, começa por explicar.

Uma vez que as refeições eram partilhadas com os hóspedes, Mário Pereira começou a conhecer melhor a “alfacinha” e deixou-se apaixonar. No entanto, garante, “foi ela quem me catrapiscou, porque eu era muito tímido”.

Por volta dos 30 anos Mário Pereira decide mudar-se com a esposa para Lisboa onde ainda hoje vive. “Arranjei trabalho nos CTT e como gostaram muito de mim fui subindo na carreira, até chegar  a ser chefe de armazéns dos correios”. Pelo meio tirou ainda um curso de comercial por correspondência e outro de rádio, focado na parte técnica. “Sempre tive este bichinho por aprender mais e mais”, refere.

Fiel à Gândara

Há mais de 60 anos a viver na capital, Mário Pereira refere, ainda assim, não se sentir lisboeta. “Sou e serei sempre febreense, embora tenha vivido bem mais tempo em Lisboa do que em Febres”.

Mesmo depois de se aposentar foi por Lisboa que ficou. Afinal é lá que vivem os dois filhos, os quatro netos e os seis bisnetos. “A minha família está toda lá e lá tenho sempre com que me entreter”, partilha.

Algum tempo depois de a esposa falecer, Mário Pereira, na altura com 76 anos, inscreveu-se na Academia de Cultura e Cooperação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, de modo a ocupar os tempos livres e em simultâneo combater a solidão. “Estou lá desde 1998. Na altura fazia caricaturas de colegas na brincadeira e algumas pinturas, de modo autodidata, e decidi que queria saber mais”, explica.

Na Academia diz sentir-se em casa e são muitos os amigos que por lá mantém. “Sou muito querido e bem tratado por todos. As senhoras, principalmente, gostam muito de mim”, refere.

Embora se tenha inscrito, de início, para aprender a pintar, entretanto já foram várias as actividades que experimentou. “Quanto mais se aprende menos se sabe, por isso não gosto de estar parado. Tenho aulas de astronomia, de hidroginástica, de pintura a óleo, pastel e aguarela. Também gosto muito de escrever e de ler, embora leia pouco devido às cataratas. Na minha casa tenho uma biblioteca e um corredor repleto de milhares de livros, essencialmente de escritores portugueses e de história”, diz-nos. Porém, entre as várias actividades que desenvolve, é a pintura aquela que lhe dá maior prazer. Prova disso são os mais de 200 quadros aos quais deu forma nos últimos anos e que faz questão de oferecer a amigos. Também já participou em exposições em Febres, Cantanhede e em Lisboa.

Os temas da sua pintura vão ao encontro das suas raízes. Com efeito, Mário Pereira é mestre em pintar a Gândara da sua “meninice”: desde a mulher de lenço à cabeça à puxada das redes de arte xávega, passando pelos agricultores a trabalharem a terra árida. “Gosto de pintar paisagens vivas e imagens que retratem costumes antigos, para reactivar memórias e reviver momentos do passado”, frisa, acrescentando, ainda assim, que não se considera pintor: “Um pintor pega num pincel e faz. Eu não. Tenho que pensar, fazer os desenhos…é assim”.

Para além das aulas que frequenta, Mário Pereira ainda se entretém em casa. “Faço muitos trabalhos manuais com papel. No Natal, por exemplo, envio todos os anos para os meus amigos centenas de postais com imagens recortadas à mão por mim”. Todos os dias faz ainda questão de dar um passeio, “que foi encurtando à medida que os anos passam”, diz-nos com um sorriso genuíno.

Embora os 94 anos já pesem e se notem na sua aparência frágil, Mário Pereira não é de muitos lamentos. “Felizmente não fumo nem bebo, não tenho vícios… ou melhor, o meu único vício é não estar muito tempo parado. Se não fossem estas actividades todas já não estava aqui”.