Idalécio Cação homenageado na Biblioteca de Cantanhede

No dia 7 de Outubro a Biblioteca Municipal de Cantanhede recebeu uma iniciativa literária em homenagem a Idalécio Cação. O escritor gandarês, falecido em finais de 2016, foi lembrado num sarau de leitura que contou com a participação do Cantemus – Coro Juvenil do Município de Cantanhede e da Tuna dos Serviços Sociais dos Trabalhadores do Município de Cantanhede.

A iniciativa partiu do Clube de Leitura, afecto à Biblioteca de Cantanhede, e que comemora, em 2017, 10 anos de actividade. O programa realizou-se em torno da obra do escritor nascido na Lafrana da Figueira da Foz.

Idalécio Cação perfila-se ao lado de Carlos de Oliveira, na temática de uma mesma escrita em redor da Gândara. Escrita essa que transborda a realidade da vida das suas terras e das suas gentes.

Esta similitude acontece com estes dois escritores, ambos imortalizados nas suas aldeias: Carlos de Oliveira em Febres, na casa das suas origens, e Idalécio Cação na biblioteca que tomou o seu nome no passado dia 13 de Agosto.

Nas palavras do Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cantanhede, Pedro Cardoso, esta homenagem, a que a edilidade se associou, traduz “um reconhecido tributo a partir da forma encontrada para aqui suscitar a sua obra, no prosseguimento dos fortes elos de estima e admiração que sempre foram mantidos com o escritor, que tão afincadamente se assumia como gandarês”. E, de facto, ele era muito de cá: nos mercados da Tocha só lá não estava se de todo não pudesse; no Escoural, de volta da broa e das batatas a murro, não havia cliente mais dedicado; na festa do tremoço, na Fervença, era vê-lo feliz e sorridente em amenas cavaqueiras; nos passeios aos moinhos, ele era sempre o primeiro; nos arraiais gandareses, era um devoto timoneiro e, na Praia, na sua Praia da Tocha que ele classificou numa das suas crónicas como a melhor praia que existia, os seus verões, os seus fins-de- semana, as suas sestas, as suas e nossas noitadas eram tudo, mesmo tudo para o escritor. Basta lê-lo!

O convívio que aconteceu na Biblioteca Municipal foi brilhante, brilhante por ter satisfeito os objectivos propostos, pelas pessoas que mobilizou, pelo programa em si.

Com efeito, escolhidos que foram 30 textos retirados das suas obras, procedeu-se à sua leitura por gente escolhida entre a assistência que enchia o anfiteatro. E tudo isto completado com uma animação musical bem conseguida pelo grupo Coral da tuna dos serviços sociais da Câmara e do coro juvenil do Município.

A respeito do seu percurso académico há a destacar a sua formação na área da Filologia Românica e o seu principal desempenho como docente nas universidades do Minho e de Aveiro.

Quanto ao rol da sua produção literária há a referir a inúmera colaboração em jornais e revistas, por um lado, e a publicação de poesia avulso e em antologias e prosa, por outro, nomeadamente livros de contos, de etnografia e lexicografia, romances, crónicas e um Glossário de termos gandareses.

Algumas destas obras foram galardoadas com os Prémios Literários Miguel Torga, Camões, Tomaz de Figueiredo e Afonso Duarte. E quando acima referia aquela sua Praia e fazia o apelo à leitura do que sobre ela escrevera, resta-me acrescentar que não houve nada que ele ali tivesse esquecido: nem a tia Maria do Finfas, nem o Camarão, nem o arrais Ramiro, nem o tio Albino dos Abanos, nem o barco Pouca Sorte, nem as redes e a pesca, nem os palheiros, nem as batatas assadas na areia, nem a sementeira e a plantação da floresta, nem as camarinhas, nem os guardas florestais … Tudo ele imortalizou genialmente, tudo está escrito pelo seu punho, tudo lhe foi ditado pelo coração. Por isso eu defendo que Idalécio Cação merecia ter uma referência nesta terra: numa rua, numa praça, num jardim, num qualquer espaço de onde se ouvisse o mar!

Autor: António Castelo Branco