Viver com a diabetes

Esta segunda-feira, dia 14 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Diabetes.

Falar da Diabetes Mellitus é, sem dúvida, falar de um dos maiores desafios actuais da saúde pública. Com efeito, há 30 anos, aquando da comemoração dos 50 anos da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), a Direcção-Geral da Saúde anunciava que 2 milhões de portugueses poderiam vir a desenvolver diabetes no futuro. Na verdade, e caso se mantenha a actual taxa de crescimento da incidência da diabetes, este é um número que poderá vir a confirmar-se daqui a pouco menos de duas décadas.

Segundo dados da DGS, a diabetes tipo 2 já atinge mais de 400 milhões de pessoas por todo o mundo e, embora inicialmente atingisse essencialmente países ricos, com a globalização, chegou a todos os continentes, sendo de maior prevalência na China, Índia, Brasil, EUA, entre outros. No caso da diabetes tipo 1, embora esta atinja somente cerca 5% da população, tem vindo a aumentar ligeiramente e em idades cada vez mais jovens.diabetes

Em Portugal, segundo o estudo PREVADIAB, mais de um milhão de pessoas vive com a diabetes e mais de 2 milhões têm um risco elevado de vir a desenvolver a doença (pessoas com tolerância diminuída à glicose ou com alteração da glicemia em jejum, conhecidos como hiperglicemia intermédia ou pré-diabetes). Ou seja, cerca de 40% da população, entre os 20 e os 79 anos, tem uma situação de disglicemia, diabetes ou hiperglicemia intermédia.

Mas afinal o que é a diabetes? A diabetes é uma doença provocada por uma deficiência ou resistência do organismo na produção de insulina, uma hormona produzida pelo pâncreas, que funciona como uma chave que permite a entrada da glicose [açúcar] no interior das células. Sem esta hormona, a glicose não entra e vai-se acumulando no sangue.

Embora existam vários tipos de diabetes, os mais comuns são a de tipo 1 (mais raro e causado por uma reacção auto-imune) e a de tipo 2 (representa 90% dos casos e é causada, acima de tudo, pelo estilo de vida das pessoas).

Como doença crónica, incurável e sistémica que é, a diabetes provoca várias complicações. As principais são a nível macro e microvasculares, o que aumenta o risco de vir a sofrer de doença cardiovascular. Para além disso, a diabetes constitui-se como a principal causa de insuficiência renal, de cegueira ou ambliopia na população adulta, assim como de amputações dos membros inferiores.

Entretanto, nos últimos anos, cientistas identificaram que o aumento de risco de alguns cancros como o do pâncreas, do fígado, do cólon, do endométrio e da mama, também se juntou às complicações clássicas da diabetes.

diabetes_Viver com a diabetes nem sempre é fácil. Na verdade, são vários os cuidados a ter para evitar as complicações associadas à doença e que, grande parte das vezes, os utentes desconhecem. Inês Ribeiro é enfermeira numa Unidade de Saúde Familiar por onde passam várias centenas de pessoas diabéticas e, como tal, conhece esta realidade bem de perto.

“Para viver o melhor possível com a diabetes, a pessoa precisa de adquirir conhecimentos e competências nas várias áreas do tratamento. O tratamento da diabetes assenta no balanço entre a alimentação, medicação e exercício físico. No entanto, o grande factor de ligação entre estas três componentes é a educação da pessoa com diabetes, constituindo esta o elemento chave do tratamento da diabetes”, começa por explicar a enfermeira de família.

Na consulta da diabetes, Inês Ribeiro refere que o mais importante passa por “dar ao doente a real noção da sua doença – o que é, o que a causou, como se desenvolve, o que a melhora e o que a agrava. Esta consciencialização fará com que a pessoa com diabetes siga mais de perto as indicações dadas pela equipa que a acompanha”.

Deste modo, o seu papel passa por identificar as necessidades da pessoa, as suas dificuldades, os seus problemas, a sua capacitação e competências em relação aos vários aspectos do tratamento. Entre as várias intervenções, cabe muitas vezes à enfermeira definir um plano alimentar de acordo com os gostos e preferências da pessoa, ensiná-lo a tomar a medicação oral para a diabetes e como administrar insulina, realizar o rastreio do pé diabético, auxiliar no manuseamento do glucómetro, ajudar a evitar, identificar ou reagir em situações agudas como a hipoglicemia e a hiperglicemia, entre outras.

Embora a diabetes seja cada vez mais comum, continua a ser um choque receber a notícia de que se sofre desta doença. “Sempre que alguma coisa muda na nossa vida sofremos um processo de adaptação. Ao ser diagnosticada a diabetes, uma doença crónica, que obriga a uma grande mudança, cada pessoa reage de maneira diferente, passando pelo choque/negação, medo, revolta, depressão, até chegar à aceitação”, explica Inês Ribeiro.

No caso específico da Diabetes Tipo 2, frisa a enfermeira, por vezes torna-se ainda mais complicada a gestão da reação, “pois, nestes casos, a maioria das pessoas é adulta e/ou idosa e já estão instituídos hábitos e rotinas que são muito difíceis de alterar. Conhecida como uma ‘doença silenciosa’, muitas das vezes as pessoas não apresentam sintomas (ou estes não incomodam muito e, por isso, passam despercebidos) e como se sentem bem, não entendem porque têm de mudar os seus hábitos para prevenir as complicações tardias da diabetes”.

Enfermeira familiar há quase uma década e com várias formações credenciadas pela APDP, Inês Ribeiro deixa algumas informações a ter em conta quando se é diabético:

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A NÃO ESQUECER:
  • Mantenha os níveis de glicémia controlados
  • Faça uma alimentação saudável e equilibrada
  • Ingira em todas as refeições hidratos de carbono (sobretudo antes de actividade física), para evitar hipoglicemia
  • Mantenha a tensão arterial controlada
  • Faça exercício físico regularmente e em segurança
  • Leve sempre açúcar consigo
  • Vigie regularmente os seus pés
  • Mantenha hábitos de vida saudáveis (como não fumar e evitar o consumo de álcool)
  • Tome sempre a medicação prescrita pelo seu médico
  • Se tiver dúvida contacte o seu médico/enfermeiro de família