O mundo inteiro extasiou-se com a grande notícia: no espaço de um ano, o número de milionários aumentou 6%. Em contraponto, e como toda a gente não sabe, pelo mundo inteiro cada vez mais pessoas se suicidam por não aguentarem o regime de escravatura a que são arbitrariamente sujeitos nas empresas, após as alterações legais que pretendem esmagar (sempre mais!) quem trabalha e enriquecer (sempre mais!) os detentores do capital.

Portugal não foge a esta triste regra. Mas o povo português é sereno! Ainda que o reduzam à servidão e ao suicídio, come e cala!

Nunca, por exemplo, imitaria os subversivos franceses que, por muito menos que isso, durante semanas colocaram as ruas a ferro e fogo!

Poderemos compreender que a nossa imprensa, na sua infinita bondade, queira poupar-nos preocupações. Mas, não existindo em Portugal esse perigo, não conse guimos compreender que ela mantenha os portugueses ignorantes acerca da forma de escravidão, ainda mais viciosa, que a EU, nas nossas costas, nos está a preparar.

Pequenas amostras deste futuro que nos reservam estão já em prática na rica Inglaterra, onde uma linha de comboio subterrânea está a ser construída em Londres por escravos de 29 nacionalidades, obrigados a trabalhar mais de 72 horas por semana, por salários de miséria. E na riquíssima Alemanha, onde há milhares de trabalhadores a ganharem o magnificente salário de 1 euro por hora!

Ao contrário das habituais ignorância e passividade portuguesas, outros povos estão a acordar e a vir para as ruas. E a dizerem que não aceitam que o Direito das empresas se sobreponha ao Direito dos Estados e dos Povos.

Por isso, de repente, os milionários começaram a ficar assutados: e se o célebre Tratado Transatlântico (TIPP) estivesse ameaçado? E se todos os esforços de Durão Barroso e dos seus sucessores para reduzirem os europeus a meros escravos das multinacionais america-
nas caíssem por terra?

Perante tal perigo, mais uma vez, a capacidade de imaginação do capitalismo não nos dececionou. E, não fosse o diabo tecê-las, a engenhosa solução logo foi en- contrada: se o TIPP corre perigo, pois então que entre em vigor o “Acordo Misto” Europa-Canadá, assinado em setembro de 2014.

Este acordo tem uma enorme vantagem: através dele, e sem a assinatura de qualquer Tratado, as empresas americanas, passando pelo Canadá, poderão livremente fazer aos povos da Europa as mesmas malfeitorias previstas no TIPP. Mas tem também um enorme inconveniente: é que, sendo um “Acordo Misto”, tem que ser ratificado pelos Parlamentos dos países da EU, processo que levaria muito tempo (e o capital não pode esperar!), seria demasiado democrático aos olhos americanos e demasiado arriscado: bastaria, de facto, que um único dos 28 Parlamentos não o aprovasse para que fosse frustrado tão belo projeto de escravização dos cidadãos europeus!

Como evitar, então, que os donos do Mundo sofressem tão grande desgraça? Muito simples: enchem-se os bolsos dos políticos europeus – veja-se como Barroso já foi premiado com a entrada no multimilionário Club Bilderberg! – e estes encarregam-se do resto…Receita absolutamente eficaz.

Aqueles que ninguém elegeu e que, em Bruxelas, reinam ditatorialmente sobre as nossas vidas, logo resolveram a questão: numa das suas habituais manigâncias, bastou-lhes mudar o nome de “Acordo Misto” (que obrigava à aprovação dos Parlamentos nacionais), para “Acordo Europeu” (que já não precisa da aprovação de ninguém)! E o facto está consumado!

E nós, cidadãos, respiramos alívio! Que fantástico! Que extraordinária consolação sabermos que as multinacionais já poderão livre e legalmente obrigar-nos a trabalhar 72 horas por semana, como no comboio de Londres; a pagar-nos 1 euro por hora, como na recolha de lixo ou nas canalizações, na Alemanha; ou a suicidarmo-nos pelo stress no trabalho, como já acontece por todo o lado.

O capitalismo do séc. XIX, após a guerra franco-prussiana, achava que não se deviam pagar salários aos trabalhadores, porque a estes já lhes bastava ser-lhes permitida a enorme honra de trabalharem de graça para os homens ricos. O capitalismo de hoje acha que seremos ingratos se não apreciarmos a gigantesca honra de podermos morrer miseráveis, escravos e psicologicamente aniquilados para que meia dúzia seja dona do Mundo.

E têm razão! Pensando bem, haverá mais suprema felicidade que possamos desejar?